N'isto o intrepido Affonso, a si chamando As reservas, que cauto tem poupado, O decisivo esforço emfim tentando, Ao assalto as impelle denodado. Mal das gentes desliga o regio mando O valor tanto a custo sopeado Armas, clamor de guerra, e tubas soam, E contra o mouro irrisistiveis voam.
De todos o primeiro ao morro avança O mancebo Ruy leve, e esforçado, Os penhascos transpõe sem mais tardança Que a anta o precipicio congelado; Fere, derriba, e mata a herdada lança, Foge o mauro tropel desordenado, Ruy segue qual raio a rôta gente Pela porta, que aos seus torna patente.
Por ella ruina e morte Penetra, de horror cercada, O valor fallece ao forte, Com a esp'rança abandonada. Cada qual as armas lança, Cada qual arrója a espada. O vencedor na vingança Irritado se enfurece, Céva as iras na matança, A humanidade estremece, Mas a sanha do soldado A sua voz desconhece: Nada p'ra elle ha sagrado, E na crueza incendido Se crê pelo ceo armado, Sobre o infeliz vencido Julgará infidelidade Sentir-se compadecido; Nem o sexo nem a idade Salva do ferro cruento, E de horror e crueldade É o penhasco inteiro um monumento.
O Sol cobriu de horror a clara fronte, Espessas negras nuvens o toldaram; As nevoas sobre a borda do horisonte Da roixa côr do sangue se pintaram; Os córvos carniceiros sobre o monte Com o faro da atroz prêza esvoaçaram, E enlutados os ceos, a noute fria Mais cedo pareceu pôr termo ao dia.
Farto o soldado emfim de crueldade, Extinctos quasi os miseros vencidos, Amainou pouco a pouco a tempestade, Cessaram os clamores, e os gemidos, Já o Chefe recobra a authoridade Sem força entre os primeiros alaridos, E da victoria no seguro goso Abandonam-se as gentes ao repouso.
Mas Ruy, cujo joven peito encerra O preceito da Mãi, do Pai legado, O descanço dos olhos seus desterra, Vagando no Castello desolado. De quente sangue vê fumando a terra, O cadaver encontra abandonado E o misero, que em mais tyranna sorte Sem asar de viver lucta co'a morte.
No peito o coração em horror tanto De Ruy se apertou, a alma sensivel Viu, a um tempo com dôr, terror e espanto, P'ra quanto não é fera a scena horrivel; Não podendo suster amargo pranto, Quasi maldiz victoria tão terrivel, Fugindo ao quadro atroz por mais não ve-lo Se entranha para o centro do Castello.
Da menagem a torre alli se erguia, No mais alto do morro alevantada, Torre rectangular que descobria Em redor a campina variada, Lá na alta noute, inda hoje triste pia Na muralha com o tempo descarnada O infausto mocho, e no seu seio escuro Se abriga contra a luz morcego impuro.
De vigia servia o cume erguido, Na parte media as armas se guardavam, No mais baixo recinto denegrida Em prisão dura os crimes se expiavam. Por caracol estreito, e retorcido Os planos entre si communicavam. Na masmorra o soldado fatigado Não tinha a aquelle tempo penetrado.
Na torre entra Ruy, e parecia Fatidico o instincto que o guiava; Á medida que o caracol descia Ancioso seu peito se agitava, Na escuridão completa se immergia, Palpando o muro os passos tenteava, Quando na marcha subito impedido Sente um corpo cahir, e ouve um gemido.