Estremece o mancebo co'a surpresa; Mas prompto do repente recobrado, A mão ao corpo estende, e em vez de asp'reza Sente o tacto macio e delicado De anneladas madeichas na leveza, N'um seio feminil brando, agitado; Mais não hesita, o corpo em braços toma, Fóra da torre com o fardo assoma.
Mas o corpo que leva entre seus braços Sem movimento está, e a voz perdida, Pendem-lhe os membros com o mover dos passos Qual a vide de olmeiro desprendida; Se o coração, batendo por espaços, No debil ser não revelára a vida, O mancebo por certo acreditára Que da morte os mysterios profanára.
Mais o fardo apertava contra o peito, Mais do mancebo o peito se agitava. Parecendo-lhe sentir passo suspeito Que apoz elle nas sombras caminhava, A marcha apréssa, e n'um carreiro estreito Entra a mata, que a um lado a serra brava Selvatica produz, e na espessura Mais densa, o fardo põe sobre a verdura.
Qual pasmo sem igual, quando encarando Aquella, que das trevas arrancára, Da lua lhe revéla um raio brando Do peregrino rosto a forma rara; Quando, no vulto immovel attentando, Descobre do mancebo a vista avára As bellezas, que prodiga a natura De Fatima juntou na formosura.
A pallidez da morte realçava Merencoria a expressão de seu semblante; Os apagados olhos lhe cerrava A palpebra de cilias abundante; Do seio, que opprimido palpitava, Parecia que um suspiro a cada instante Ia partir, que o moço a vida déra Se nos labios gentis o recolhera.
Extatico de pasmo e de surpreza Jaz Ruy com tal vista captivado, Sem cogitar de tanta gentileza Qual seja o miserando infausto estado. Co'a alma em goso estranho absorta e preza Ficára o moço alli como encantado, Se na Bella afllicção mais dura e forte Não parecesse estender o véo da morte.
Contrahiram-se as faces melindrosas. Os membros delicados se obduraram, Os labios virginaes, murchas as rosas, Com um moto convulso trepidaram, De suór frio as gotas abundosas Pallida a frente, e o collo lhe banharam, Alevantou-se o seio seu mimoso, Tomou-se o respirar mais afanoso.
O imprudente Ruy sahe do lethargo Recobra com o terror o pensamento, Do abandono da triste se faz cargo Naquelle transe horrivel de tormento; Dos olhos lhe rebenta pranto amargo, A Bella aperta ao peito tão violento Como quem quer partir com ella a vida, Ou com ella a existencia ver perdida.
Não foi do moço inutil o transporte, Que a Bella entre seus braços estreitada; Ou fosse por que assim o quiz a sorte, Ou milagre de amor: reanimada, De subito escapando ás mãos da morte. Move o collo, ergue a frente debruçada, Cessa a suffocação, livre respira, Abre os formosos olhos, e suspira.
Na mesma situação mais de um instante Um e outro ficaram sem fallar-se; Elle de puro goso delirante, Ella como quem busca recordar-se: Mas breve de Ruy vendo o semblante, Sentindo entre seus braços estreitar-se, D'elles se arranca, e em pranto debulhada, Fallando assim, lhe cahe aos pés prostrada.