«Não por certo, exclama o moço Prompto o corpo alevantando, «Se teu mal prevenir posso, «Eu vôo já ao teu mando. «Alenta o peito formoso, «Minóra tanta afflicção, «Confia no ceo piedoso, «Angelica perfeição; «Que aqui pela chamma ardente, «Que n'este peito ateaste, «Juro, que ante o Sol nascente «Verás esse que choraste.»
Diz, e qual parte a pedra sibilante Da volteada funda despedida, De Fatima veloz parte o amante, Obedecendo á ordem recebida, De penhasco em penhasco salta avante, Desdenhando escolher senda seguida, Chega ao Castello, ao campo de batalha, Ás torres, á mortifera muralha.
Uma vez, outra vez corre o recinto; Mas em vão, com o empenho não atina. Cada corpo examina em sangue tinto, Busca de balde, e em buscar se obstina; É mais forte o amor do que o instincto, Entre as scenas de horror, entre a ruina Só Fatima divisa e seu tormento, Suffoca amor todo o outro sentimento.
Desenganado de que em vão procura, Volve Ruy ao centro do Castello, Com um facho acceso desce á cella escura D'onde ha pouco arrancára o fardo bello; Interroga os soldados, a armadura De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo Nenhum lhe dá signaes; exasperado Volta outra vez ao campo ensanguentado.
Na pesquiza injucunda em vão porfia, Inutil tedio! infructuosa lida! Nem novas nem signaes achar podia, Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida. No emtanto com o raiar de novo dia Era a Lua no brilho amortecida, E as estrellas mais proximas do oriente Se engolfavam na luz do Sol nascente.
Do mancebo o valor succumbe á ideia Da exasp'ração do ser idolatrado; Fatima de antemão de afflicção cheia Contempla em todo o peso de seu fado. Por ve-la anhella; mas ve-la receia, Receia o seu pesar exasperado, Vacilla, treme; mas amor o excita E da matta na senda o precipita.
As muralhas transpõe, na brenha escura Já seus tremulos passos avançavam, Receio, impaciencia, horror, ternura Em tropel dentro n'alma lhe luctavam; Tanto mais progredia na espessura Tanto mais seus transportes se exaltavam, Os pensamentos se lhe confundiam, E convulsos os membros lhe tremiam.
Fóra de si, sem tino, e delirante Chega emfim ao logar onde deixára O prodigio de amor, cujo semblante De todo o ser antigo lhe mudára...... Mas, oh pungente dôr! funesto instante! É deserto o penedo..... a forma rara Se esvaeceu na sua ausencia breve, Qual com o romper do dia o sonho leve.
Ligeira barca, que a favor do vento, Em demanda da praia desejada, Vai rapida cortando o salso argento, Deixando apoz a esteira prolongada, Perde o impulso, a força, o movimento, Em banco ignoto subito encalhada: Tal fica aniquilado, immovel, quedo O surpreso Ruy ante o penedo.
Mas depois, prolongando um doce engano, Luctando ainda contra a desventura, Pela Moura clamando, o moço insano Discorre aquem e alem pela espessura; Porem o infausto, extremo desengano Não pode recusar, quando a verdura, Já pelo Sol nascido alumiada, Se lhe antolha deserta, abandonada.