avalleiro, se é verdade «O que acabas de dizer, «Na minha triste orfandade «Só tu me podes valer. «Não buscarei disfarçar-te «Qual é minha condição, «De tudo vou informar-te, «Ou sejas sincero, ou não.

«Nas terras da Andaluzia «Mouro altivo me gerou, «Cujo nome e valentia «Longe a fama propagou. «De seu braço o nobre Ismar «Conhecendo a fortaleza, «D'estes muros confiar «Quiz a guarda e a defeza. «Do Téjo a margem deixada, «Onde outra arce regia, «Mandou-me vir malfadada «Para a sua companhia. «Sobre o perigo a que me expunha «Saudade lhe déra antolhos, «Que elle em mim seu prazer punha, «Que eu era a luz dos seus olhos!

«Nascendo perdi a Madre, «Que em seu seio me formou; «Mas achei tudo no Padre «Que amoroso me creou. «Quer na tregoa socegado, «Quer na fadiga guerreira, «Jámais fui d'elle apartada, «Antes sempre a companheira. «Quando, ainda tenra infante, «Nos campos o acompanhava, «Sobre o cavallo possante «Um captivo me tomava; «E quando em forças crescida «Quiz-me elle mesmo ensinar «A tomar nas mãos a brida, «Os ginetes a domar.

«Ora correr me fazia, «Dado ao venatorio trato, «O gamo, que parecia «Nadar nas pontas do matto; «Ora..... Mas ha! que aproveita «Recordar carinho seu?.... «Minha desgraça é perfeita, «Já não vive o Padre meu! «Não vive; que se vivêra «Por certo que a filha cára «O seu braço soccorrêra, «E a todo o custo a salvára!

«Hauzeri meu Padre é morto!... «Cavalleiro, ah por piedade, «Se desejas dar conforto «Á minha dura anciedade, «Corre ao campo da batalha, «Ao posto o mais arriscado, «Lá na torre, ou na muralha «Acha-lo-has traspassado. «Do seu escudo brilhante «Aro de ouro em torno gira, «De ouro e purpura o turbante «Tem por tope uma saphira: «É seu alfange pendente «De rico talim bordado, «Obra da filha, e presente «Destinado a melhor fado! «Corre, corre, cavalleiro, «Se tens de mim compaixão, «Se teu peito é verdadeiro, «Se te doe minha afflicção: «Busca o cadaver querido, «Faze-o á filha entregar; «Que eu possa o sangue espargido «Com o triste pranto lavar: «Que eu possa triste e mesquinha «Dar seu corpo á terra dura, «E de quanto caro eu tinha «Expirar na sepultura!»

Assim a Virgem moura se exprimia, Mais de um suspiro as vozes lhe cortava, E o pranto, que dos olhos lhe corria, Da linda face as rosas lhe banhava. O mancebo dos labios seus pendia Que no ardor de servi-la se abrazava, E mal ella acabou, aos pés prostrado, D'esta sorte lhe volve transportado:

«Por piedade, anjo de graça, «Mitiga a acerba afflicção «Que a alma me despedaça, «Que me parte o coração. «Salvarei, pois o desejas, «Esses despojos presados; «E se ao furor das peleijas, «Foram seus dias poupados, «Verás teu pai a teu lado, «Oh bella, n'um curto instante: «Feliz de adoçar teu fado «O teu extremoso amante!»

No semblante da Virgem peregrina Rubor vivo a taes vozes apparece; Qual ao raiar da aurora purpurina A viva côr nas nuvens resplandece; Em seu peito porem, que a dôr domina, A surpreza de prompto se esvaece, Com gesto firme, e com solemne accento Confirma assim do moço o nobre intento.

«Cavalleiro generoso, «Segue o proposito teu. «Se o ceo para mim piedoso «Salvo tem o Padre meu, «Se ve-lo, abraça-lo ainda «Eu dever a teu cuidado «Pela gratidão infinda «Terás meu peito ligado; «Mas se o Padre, vivo, ou morto, «Me não fôr restituido, «Não busques p'ra mim conforto, «Meu fado ha de ser cumprido. «Jámais Fatima opprimida «Escrava de um vencedor, «A tal extremo abatida «Servirá sob um senhor; «Que antes de ver-me aviltada «Saberei da abjecta sorte, «Da condição exasperada, «Achar allivio na morte.»