Ou qual o touro insofrido, A crú jogo abandonado, Ardente dardo incendido Tendo no corpo cravado,

Salta, brame, urra, e pungido Do fogo sempre ateado, Em corcovos accommette, E contra a têa arremette:

Tal o moço furioso Musgo, relva, arbustos, flores, Prostra, arranca, impetuoso Nada poupa em seus furores; Té que emfim com gesto iroso Volve espaldas aos verdores, E do sitio triste, e infausto Se arranca de força exhausto.

Affonso, em tanto, em pompa respeitosa Dos ministros de Deus marcha cercado Á capella da Virgem gloriosa, Que no forte Castello havia alçado. Segue-o dos seus a turba numerosa Exultando por ver desagravado Do insulto agareno o logar santo Com o christão sacrificio sacrosanto.

Já tinham descendido a curta escada, Que ao pavimento interno conduzia, Da porta o cume agudo transpassado Onde esculptado o Trino Deus se via; Co'a sagrada aspersão tinham mundado Do sacro pavimento a lagem fria, Em canto baixo e triste repetido Psalmo do Rei profeta arrependido.

O merencorio som no templo escuro Vagaroso, e solemne resoava, Á piedosa effusão de um zelo puro Devota a multidão se abandonava; Quando Ruy com passo mal seguro Do Castello nos muros penetrava E levado da lugubre harmonia Na Capella entre os mais se confundia.

Neste mesmo momento o Celebrante Ante o altar sagrado reverente Se inclinava, e o povo circumstante Baixava até á terra humilde a frente. A tal vista o mancebo delirante Seu barbaro furor desmaiar sente, Sente expirar a raiva, e a fereza, Trocar-se a ira em luto e em tristeza.

Os musculos contractos se relaxam, A frente, hirta até alli, no peito inclina, Sobre os olhos as palpebras se abaixam, O fogo abrazador cede e declina. Não de outra sorte as plantas vigor acham Do orvalho na frescura matutina, Como adoça ao mancebo o horrendo estado A pompa augusta, o cantico sagrado.

Tal quando arrebatado, e possuido De furias infernaes, castigo horrendo, O do povo de Deus primeiro ungido, Co'espirito das trévas combatendo, Fora de si, convulso, enfurecido, Se estava entre agonias debatendo, Da harpa de David a melodia Seu soffrimento acerbo adormecia.

Findou porem a pompa veneranda, Os canticos, e os ritos terminaram; E em alas logo de uma e outra banda Do vestibulo as gentes se formaram; Ao pio vencedor que os rege e manda Mil triumfaes applausos elevaram; E em marcha triumfal, dos seus seguido, É Affonso ao Alcacer conduzido.