Alli chegado, próve na defeza Dos muros novamente conquistados, Para que nem por força, nem surpreza Possam mais ser dos mouros retomados. Confia defender-lhe a fortaleza Ao valor de Monteiro, e seus soldados, Em vez de Payo, que perdido a havia De Theotonio co'a gente a quem regia.

Mas já n'aquelle tempo o Prior Santo, Que tal era o pensar n'aquella idade! O baculo depondo, e o sacro manto, Alliando a vingança co'a piedade, Entre os mouros fizera estrago tanto Em despique da perda da Cidade, Que em Arronches, por elle aos seus rendida, Fôra de Affonso a lei reconhecida.

Ao tempo em que entre os sabios conselheiros O Rei a paz e a guerra discutia, E ao longo das muralhas os guerreiros Folgavam da conquista na alegria; Ruy, a joven flôr dos escudeiros, Monta o cavallo, que da Andaluzia Aos corceis os mais bellos fôra inveja Do manejo na pompa, ou na peleija.

Mas não sustenta o moço a redea leve Co'a costumada e dextra gentileza, Que ao soberbo animal motos prescreve Que lhe dobram as graças e a belleza, Deixa-a pender no collo airoso e breve, E submergido em lugubre tristeza, Sair faz ao acaso o bruto bello Pela primeira porta do Castello.

O bruto a mão usada não sentindo Co'a frente baixa o trilho proseguia, Tardo no passo, o collo distendido, Partir do damno as magoas parecia; Abandonado a si, não conduzido, Do Lena para a margem progredia; No sitio onde hoje sua perenne fonte Transpõe o passageiro sobre a ponte.

O quadrupede docil, como esp'rando A lei de seu senhor na fresca borda Um momento parou, e o moço olhando Com torvos olhos, como quem acorda De sonho ingrato, e á rasão tomando, Móres penas reaes sente, e recorda, Distrahido lhe affaga o collo, e clina, E para a dextra a leve redea inclina.

Não longe do logar onde se achava Graciosa a corrente se torcia, Alli viçosa a margem se adornava Das plantas, que o remanso mais nutria, Com graça ao lado opposto se elevava Um mamillo gentil, donde surdia Um fio de agua clara murmurando Qual rôla entre a verdura suspirando.

A curta elevação faz que se aviste D'alli do valle ameno a gentileza, Ondulado terreno em frente existe D'onde o cultura tem banido a asp'reza, Alternada co'a vinha alli subsiste A pallida oliveira, e a riqueza Da loura Ceres; fecha o quadro bello Do ceo sobre o azul negro o Castello.

Aqui pára Ruy e desmontando A um ramo o corcel liga, e lentamente Vai a placida fonte procurando Onde só gemer possa livremente; Mas junto um peregrino vê, tomando A simples refeição, na herva jacente Seu pobre alforje está desenvolvido, Viatorio bordão jaz estendido.

A gorra de aba espaçosa Calva a frente lhe obumbrava, A concha da praia ondosa O capello lhe adornava; De uma correia nodosa, Que o pardo saio apertava, Pendente a cabaça tinha Que a bebida em si continha.