Escravo por longos annos De um mouro, que o captivára, Mão gentil da sorte os damnos Compassiva lhe adoçára. Quebrou-lhe os ferros tyrannos; E liberto lhe inspirára Sua devoção singella Ir romeiro a Compostella.

Tal se mostrava o Romeiro, Que assim Ruy saudou: «Deus vos salve, Cavalleiro, «Vosso humilde servo sou. «Se do trato meu grosseiro, «Que aqui consumindo estou, «Vos pode o uso ser grato, «Partiremos do meu trato.

RUY.

«Graças mil bom peregrino, «Deus vos dê feliz successo «Até o vosso destino «E bem assim no regresso. «Ao Apostolo divino «Bom Romeiro o que vos peço «É que na vossa oração «Vos alembreis d'este irmão.

ROMEIRO.

«Dizei-me, bom Cavalleiro, «Se com o nosso Rei andais, «De Pedro Affonso o escudeiro «Que nome tem, que signaes? «Dizem-me ser tão guerreiro, «De tal pórte, e de obras taes «Que as gentes na lide espanta «E fóra d'ella as encanta.

RUY.

«Esse escudeiro que dizes «De Ruy o nome tem, «Dos signaes para que ajuizes «Elle mesmo a ver-te vem. «Mais não busques nem pesquizes «Novas; se as trazes de alguem, «Falla palavras seguras «Que eu sou esse que procuras.

ROMEIRO.

A nova de que ora tracto, Senhor, é tão delicada, Que heis perdoar o recato Com que ha de ser confiada. Dizei-me, onde existe um matto Com um penedo musgado, Onde na noute apparecem Sombras que se desvanecem?