RUY O ESCUDEIRO.
CANTO PRIMEIRO.
Desbaratado, e roto o mouro hispano, Tres dias o grão Rei no campo fica.
Camões, Lusiadas, C. 3.º, E. 53.ª
Cruz azul, que em campo prateado No escudo de Henrique reluzia, Em cinco o Filho já tinha cortado Por memoria dos Reis, que roto havia: De Castro-verde o campo dilatado O novo Rei com o arraial cobria, Livres os seus, e os mouros fugitivos, Partião os despojos, e os captivos.
Do arraial no meio se elevava Do grande Affonso a lenda triumfante, Em torno á qual o vento balançava As dos Cabos do Exercito prestante, De Pero Pais, que seu pendão guiava, Dos Venégas do Aio prole ovante, De um Sousa, de um Vallente, e de outros fortes Nos perigos, e na gloria ao Rei consortes.
Em seguida á do Rei se distinguia Tenda semi-real, que alli plantára Heroe, cujo valor não desmentia O sangue da Borgonha, que o formára; Pedro Affonso, a quem déra a luz do dia Amor, que o hymineo não consagrára, Digna estirpe de Henrique, e em obras suas Galardão do cuidado ao aio Fuas.
No circumstante campo, vasto, aberto, Que inda ha dois sóes medroso, e trepidante Víra a furia cruel, conflicto incerto Do Sarraceno em lanças abundante Contra o Christão, que anima o Chefe experto, E no Deus de seus pais a fé constante, Trombetas, e ataballes uns tangiam, Outros em novo canto assim diziam.