HYMNO.

Vai fugindo o Sarraceno Mais prompto do que avançou, Que todo o poder terreno Por Christo desbaratou O braço aos perros fatal De Affonso de Portugal.

Cada um dos Cavalleiros, Que por Christo ao campo vem, Cem dos infieis guerreiros Na peleja ante si tem; Mas tudo cede ao real Affonso de Portugal.

Cinco Reis de infieis mouros Contra os de Christo vieram, D'elles teve Affonso os louros, As costas a Affonso deram, Deu Deus esforço immortal A Affonso de Portugal.

Sobre o campo da victoria, Onde Christo lhe appar'ceu, E pr'a o escudo em memoria As proprias Chagas lhe deu, Ao throno alcemos real Affonso de Portugal.

Este Heroe, que Deus ajuda Tome a nossa vassallagem: Sempre ao povo seu acuda Ou Elle, ou sua linhagem: Seja pr'a sempre real A coroa de Portugal.

Sempre entro nós haja Rei Natural de nossa terra, Que na paz conduza a grei, E que a defenda na guerra, Qual o primeiro real Affonso de Portugal.

Em quanto uns assim cantam dos soldados, Vão outros pelo campo divagando: Estes colhem despojo inda espalhado, Aquelles secco matto vão cortando; Ascende ao ár o fumo, que enrolado Das accezas fogueiras vem manando, Onde est'outros preparam o alimento Dos membros lassos próvido sustento.

Já o Sol menos ardente Para o ponente descia, Temperando a calma do dia A fresca brisa nascente, No occaso reluzente, De ouro e de purpura ornado, Guarnece o ceo azulado A orla de nevoa espessa, Novo dia que arremessa Pintando um dia acabado. Tinha chegado A hora amena, Nos nossos climas Tão suave, tão doce, e tão serena, Hora, que em tempos De paz dourada, Dos lavradores É tão presada; Quando termina Do dia a lida, Quando o descanço Restaura a vida. Sopra da tarde Grata frescura Reanimando Murcha verdura. Vem o novilho, Já libertado Do duro jugo, Pascer no prado. Sobem dos campos Os segadores. Ledos cantando Ternos amores. Gentil mancebo, Que amor encanta, Ao som das córdas As penas canta, Em quanto em giros Linda pastora Co'a dança leve Mais o namora, Hora sem par, em que o cadente dia Traz repouso, ternura, e alegria!

Pedro Affonso no emtanto, em cujo peito A pár da intrepidez móra a piedade, Guerreiro sem igual, Christão perfeito, Vai demandando a erma soledade Do provecto Ermitão, asilo estreito Onde fugindo as pompas, e a vaidade, A Deus e á penitencia consagrára O venerando velho a vida cára.