Alertas vélas passaram, Que do campo a guarda tem, No arraial penetraram, Descobrindo áquem e além Os fógos abandonados Pelos dormentes soldados.
Baixou sobre Pedro o amigo Lethargo restaurador; Mas vigilia traz comsigo O cuidado roedor Que no Joven escudeiro Deixou o Ermita agoureiro.
Em vão suffocar tentava Curiosidade indiscreta, Que, mal os olhos cerrava, Logo na mente inquieta Se renovava a impressão Das palavras do Ermitão.
Assim oppresso, agitado, Da noute as horas seguiu, Até que o corpo cançado Ao somno alfim succumbiu, E o repouso ao pensamento Deu vigor, e deu alento.
Ao romper do dia A trompa soava, Cada qual surgia. Cada qual se armava. Aqui os infantes Cerram as fileiras Junto ás ondeantes Variadas bandeiras; Alli vem rinchando Cavallos de guerra O pó levantando Da arida terra. A rosada aurora No aço esplandece. Que co'a luz, que o córa, Em chammas parece. De todos na frente O Rei cavalgava, E da heroica gente Os brios dobrava: As Quinas sagradas A cota lhe ornavam, No pendão lavrados Ao ar tremolavam. Emtanto abatidos A marcha seguiam Os mouros rendidos, Que algemas prendiam. Assim vencedores Os christãos marchavam, E aos frescos verdores Das margens do Mondego se tornavam, Nas campinas de Ourique Alçado rei, o heroe filho de Henrique.
FIM DO PRIMEIRO CANTO.
CANTO SEGUNDO.
A tomar vai Leiria, que tomada Fôra mui pouco havia do vencido.
Camões, Lusiadas, C. 3.º, E. 55.ª