ara unir n'um só leito amantes aguas Vem o Liz, sobre os seixos murmurando, O Lena vem, nascido de entre as fraguas; Em seu curso modesto, alegre, e brando, Entre a relva mimosa, entre a verdura Cada qual mollemente serpejando. Jámais turvou a limfa clara, e pura O forte remo, a quilha recurvada Com que a industria mortal dóma a natura; Sómente a braça da arvore quebrada, A folha que no outomno cahe sem vida Pelo placido curso foi levada. Nas margens a aveleira entretecida Com o espinheiro está de flôr fragante, A madre silva co'a roseira unida. No espelho das aguas inconstante Reflectida balança alta ramagem De alamo bicolôr, choupo elegante; Dos vimes, e salgueiros a folhagem, Molles chorões, as braças incurvando, Vedam do sol aos raios a passagem. Alli, na primavera, sussurrando, Recolhe a abelha o mel por entre as flôres, E a borboleta as beija volitando, Quando o cantor sublime dos verdores Da aurora ao despontar, e á tarde canta Em frente ao brando ninho os seus amores. A róda leve as aguas alevanta, Que em canaes variados circulando, Levam frescura á sequiosa planta; Em quanto, dos invernos triumfando, Altos pinheiros sempre verdes frontes Reunidos se vêem aos ceos alçando Na encosta, e cumes dos visinhos montes.

No meio d'este valle a natureza Um penhasco erigiu, morro isolado, Que das aridas rochas a braveza Abruptas volve aos raios do sol nado; Com aridez igual, igual asp'reza Do occaso, e do sul encara o lado; Orna-o do norte apenas a verdura Em mais suave encosta, e menos dura.

Do forte morro ás abas se abrigaram Da destruida Liria os habitantes, Quando da natal terra os expulsaram Dos romanos as armas triumfantes; Para alli seus penates transportaram, E da perdida patria sempre amantes, De Liria ao novo asilo o nome deram, Que os tempos em Leiria converteram.

De Vandalos, e Godos povoada Foi depois, gente forte e valerosa, Que com o tempo tambem cedeu á espada Da sarracena raça bellicosa, Na epocha em que a terra celebrada Das Hespanhas sofreu perda affrontosa, E só cantabrios serros abrigaram Os que ao jugo africano se escaparam.

Mas alfim vencedor da maura gente, Affonso, no penhasco edificára Recinto marcial forte, e potente, Que de Agostinho aos filhos confiára, Quando do rôto Ismar a ira fremente No povo e no presidio se vingára, E unido a Hauzeri, mouro esforçado Tinha de Affonso os muros conquistado.

Ai! daquelle, que atrevido Com temeraria ousadia Do Leão adormecido Os furores desafia! O animal irritado, De crua raiva espumando, Corre o campo, arrebatado Morte e ruina espalhando: Com seus urros espantosos A bronca serra estremece, A luz do raio esplandece Nos seus olhos furiosos. Força não ha tão potente Que a carreira lhe embarace, Que a garra não despedace, Que não rasgue iroso o dente: Té que em fim o imigo alcança, E no côrpo ensanguentado Partido, e dilacerado, Séva as iras e a vingança.

Assim de novo a trompa bellicosa Nos valles retumbava, Assim de Affonso a gente valerosa Já de novo se armava, E as bandeiras, que as Quinas adornavam Os Alferes de novo ao vento davam.

Nobres, e ricos-homens á porfia Se apromptam sem demóra A castigar dos mouros a ousadia, E em lide vencedora Punir os damnos, com que Ismar irado Todo o transito seu tinha marcado.

O escudo embraçou p'ra nobre empreza Pedr'Affonso incansavel, Ao Rei da crua guerra na aspereza Consorte inseparavel, E com elle Ruy para a vingança Com ardor empunhou a herdada lança.