mas muito principalmente porque o não podia ser antes; sendo certo, como ja fizemos ver, que até ao anno de 1556 não sahio de Goa o poeta, ou se sahio em alguma expedição, não foi longa a sua ausencia.
De Ternate passou emfim a Macao, do que ainda hoje faz fé uma gruta que ahi existe, chamada a gruta de Camões. Com o que julgâmos ter demonstrado que o poeta foi arbitrariamente expulso de Goa, e portanto sem haver commettido crime, sôbre que recahisse uma tal pena. Donde se segue ser falso quanto a este respeito tem dito os que nos precedêrão neste trabalho. E assim se ha de ter por certo que a unica e verdadeira causa das perseguições e trabalhos, que soffreo este grande homem, foi a mesma[{XLVII}] grandeza do seu merecimento e virtude. E a Satyra, unica acção reprehensivel que na sua vida se encontra, não serve senão para provar que entre Camões e Barreto havia inimizade. Nem em tal disparidade de sentir e de pensar podia haver perfeita concordia. Francisco Barreto, homem soberbo e mediocre, posto que não desajudado da Fortuna, que sempre se inclina mais a esta especie de gente, não podia amar nem soffrer um homem tão superior, como Luis de Camões: desejava-o longe de si, para que não fosse testimunha e juiz das suas acções; e apenas se vio com o poder na mão, o prendeo e desterrou, deixando-se arrastar da sua paixão, ou dando ouvidos a mexericos e calumnias, como affirma o commentador Manoel Correa, que o ouvio da propria boca do poeta: o que perfeitamente se ajusta com o que elle mesmo nos diz nos ultimos dous versos da ja citada Estancia 81 do Canto VII:
Trabalhos nunca usados me inventárão,
Com que em tão duro estado me deitárão.
Nem este foi o só acto despotico do governador Francisco Barreto. Porque, tendo mandado destruir por Pedro Barreto Rolim a florescente e populosa cidade de Tatá no reino de Cinde, que tinha grande trato de commercio com a nossa praça de Ormus, como o governador della, Dom João de Ataide, censurasse esta medida cruel, assim por humanidade, como pela deminuição que dahi resultava nos rendimentos daquella Alfandega, e isto chegasse aos ouvidos de Barreto; o mandou autoar por um Desembargador e conduzir[{XLVIII}] preso a Goa para ser julgado, não obstante haver sido provido por ElRei no governo daquella fortaleza, e ter grande valimento na Corte. E se isto ousou fazer a um poderoso, como teria mais respeito a um desvalido?
Depois de tantos trabalhos, parece que, chegado a Macao, ahi encontrou algum descanso; e ahi concluio o seu Poema: e tambem he tradição que exercêra o Officio de Provedor dos defuntos, em que adquiríra alguma fortuna. O certo he que Luis de Camões das ilhas Molucas passou a Macao, e que de lá voltou a Goa, depois do anno de 1558, quando ja governava aquelle Estado o Viso-Rei Dom Constantino de Bragança; trazendo algum cabedal, fosse adquirido no exercicio daquelle cargo, ou por outros meios, porque isso mesmo se entende da Est. 80 do Canto VII onde diz:
Agora da esperança ja adquirida
De novo mais que nunca derribado.
Porem, chegando á costa de Camboja, de fronte da foz do rio Mecom, deo a nao em uns baixos, onde se fez em pedaços; e deste naufragio, perdida toda a sua fortuna, pôde apenas salvar a vida e o seu Poema, ganhando, como Cesar, a praia a nado. E deste infortunio e da humanidade, com que foi recebido e agasalhado por aquelles povos, se lembra elle no Canto X, Est. 128, onde diz, fallando do rio Mecom:
Este receberá placido e brando
No seu regaço os Cantos, que molhados
Vem do naufragio triste e miserando,[{XLIX}]
Dos procellosos baixos escapados,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado[[1]]
Naquelle, cuja lyra sonorosa
Será mais affamada, que ditosa.
Neste porto se demorou algum tempo, ou convidado da boa hospitalidade, ou por não achar embarcação em que seguir viagem: e aqui escreveo a paraphrase do Psalmo que dissemos, e talvez, inserio no seu Poema as Estancias que tratão deste naufragio: depois, quando achou opportunidade, partio para Goa,[{L}] onde chegou no principio do anno de 1561. E como quem se via cercado de inimigos, e tinha exprimentado quão fragil escudo he por si só a innocencia, para captar a benevolencia do Viso-Rei Dom Constantino, cuja administração, com razão ou sem ella, havia sido censurada de alguns, lhe dirigio a Epistola que começa: Como nos vossos hombros tão constantes etc., em que, exaltando as virtudes e boas intenções deste Principe, o exhorta com o exemplo dos grandes homens (e pudera tambem juntar o seu proprio) a desprezar com animo igual as envenenadas settas da inveja e da calumnia: e a Dom Antonio de Noronha (o que depois veio a ser Viso-Rei da India, e não, como suppõe Faria e Sousa, o que foi morto em Africa) escreveo outra sobre o desconcerto do mundo.
Neste vice-reinado chegou Luis de Camões a tal miseria, que se vio na precisão de pedir uma camisa para cobrir o corpo. Que espectaculo!