O Valor e o Saber pedindo vão
Ás portas da cubiça e da vileza!
Todavia muito deveo a Dom Constantino, porque não foi inquietado. Mas no do Conde do Redondo Dom Francisco Coutinho, que lhe succedeo, e que se dizia amigo do poeta, e por elle havia sido louvado em umas Redondilhas, se lhe movêrão novos trabalhos, e foi lançado em tão estreita e rigorosa prisão, que nem espaço tinha para mover-se, nem ar para respirar, como consta da Canção XI, onde fallando desta perseguição, e da que havia soffrido no governo de Francisco Barreto, diz:[{LI}]
A piedade humana me faltava
A gente amiga ja contraria via
No perigo primeiro; e no segundo
Terra em que pôr os pés me fallecia,
Ar para respirar se me negava.
Qual fosse a natureza da accusação não consta; necessario he que fosse mui grave, pois que a este chama elle o seu segundo perigo. Seus perseguidores tambem ignorâmos quem fossem; mas he de presumir fossem homens poderosos, e que no numero destes entrasse um Miguel Rodrigues Fios Seccos, homem fidalgo e rico; pois que tendo o poeta mostrado a sua innocencia, e estando a ponto de ser sôlto, o embargou na cadeia por certa somma que lhe emprestára, e que muito bem sabia que elle lhe não podia pagar. Neste novo embaraço, rindo-se como Democrito, da loucura e extravagancia dos homens, recorreo Luis de Camões ao Viso-Rei, dirigindo-lhe aquelle jocoso requerimento, que anda entre as suas Rimas; e teve por despacho a soltura.
Livre desta prisão, ainda que de seus serviços não tirava senão perseguições e trabalhos, continuou a servir ainda por alguns annos, sem nunca despir as armas, e portando-se em todas as acções e combates de maneira, que seus proprios inimigos erão os maiores pregoeiros do seu valor: até que, vendo-se ja sobre a idade, e com as fôrças quebradas de tantas privações e fadigas, tomou a resolução de voltar á patria, para terminar a carreira da sua vida no mesmo ponto, onde a havia começado. E nestes pensamentos andava, quando Pedro Barreto se lhe appresentou,[{LII}] como dissemos, e com rogos e promessas o persuadio a que fosse com elle para Çofala. Mas de tal maneira cumprio o promettido, que o poeta chegando a Moçambique, assentou resgatar-se daquelle captiveiro; e andava procurando meios de se transportar ao Reino, quando, mui a proposito para o seu intento, alli aportou a nao Santa Fe, em que vinhão alguns amigos seus, como Heitor da Silveira e o Chronista Diogo do Couto e outros, que pela honra de trazerem na sua companhia tão grande homem, lhe offerecêrão passagem franca para Lisboa. Mas Pedro Barreto, como lhe chegasse isto aos ouvidos, a exemplo do Fios Seccos, o mandou prender por duzentos cruzados, que na India lhe dera para sua matalotagem, e agora lhe pedia como divida: do que indignados aquelles generosos amigos se fintárão entre si, e satisfazendo a somma exigida, resgastárão o poeta. Assim que (observa Faria e Sousa) a pessoa de Luis de Camões e a honra de Pedro Barreto por duzentos cruzados foi vendida.
Nesta viagem vinha elle escrevendo muito n'um livro entitulado Parnaso de Luis de Camões, que trazia ja mui adiantado: do qual diz Diogo do Couto, a quem o poeta o mostrou, que era obra de inestimavel preço, cheia de erudição e philosophia.
No anno de 1569 chegou emfim a Lisboa, onde então ardia o contagio, que chamárão a grande peste. E não obstante este flagello do Ceo, que tinha todos os animos occupados de terror, tal foi o seu contentamento em ver-se restituido á patria, que escrevendo a um seu amigo do Porto, lhe dizia que ainda não[{LIII}] podia crer tanta ventura. Pensava Luis de Camões que nella encontraria a felicidade e socego, que fóra della em vão procurára; mas succedeo-lhe bem ao contrario, porque seus inimigos lhe movêrão tão crua guerra, que todas as tormentas passadas lhe parecêrão bonança, como elle expressamente nos diz (Egloga XI):
Tinha lá para mim que a vida tinha
Mais socegada cá e mais segura
Entre os meus, que com gosto a buscar vinha.
Foi de outro parecer minha ventura:
Discordias sos achei, achei dureza
Em lugar de socêgo e de brandura.
Achei as boas leis da natureza
Vencidas do interesse, e a gente cega
Tanto, que mais que o sangue, o gado préza.
Dizem que quando o mar bonança nega,
Correndo vai aquella nao mor p'rigo.
Que á desejada terra mais se chega.
Assi me aconteceo a mi comigo:
Seguro sempre ao longe, sempre ledo;
Triste ao perto, e tratado como imigo.
E a razão por que assim foi tratado Camões não he difficil de achar. O escrever dos modernos foi sempre cousa arriscada: todos querem boa fama, poucos fazem pola merecer; todos commettem erros, poucos, depois de os commetterem, gostão de os ouvir contar. E assim para não ser perseguido necessario he ou adular, ou callar. Mas o nosso Camões, que nunca voltou cara aos perigos, se propoz não só fallar dos modernos, mas dos mesmos contemporaneos; fazendo juramento solemne (que religiosamente guardou) de não[{LIV}] louvar senão quem o merecesse. Donde resultou que censurados e não-louvados se unírão para o desgraçarem e perderem. E se antes de publicar o seu poema, ja na India o perseguírão, muito peor lhe havia de succeder depois; e isso mui bem prevío elle, quando o estava ordindo; pois que, tendo invocado no principio da obra somente as Nymphas do Tejo; no fim do Canto VII, quando ia concluir a narração dos feitos antigos para passar aos contemporaneos, pede auxilio tambem ás do Mondego, dizendo (Est. 78):
Mas oh cego!
Eu que commetto insano e temerario
Sem vós, Nymphas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão arduo longo e vario!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar com vento tão contrario,
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.