Tal foi o odio que sobre elle e seus escritos attrahio a justissima censura, que o poeta faz do infame comportamento daquelles, que, tendo mais razão que ninguem para amar e defender sua patria, nos campos[{LXIV}] de Aljubarrota ousárão tomar as armas contra ella. Mas a maior de todas as insolencias foi a que teve lugar em nossos dias. O notorio Padre Macedo, que nestes ultimos tempos assalariado por estrangeiros e inimigos da patria, como assassino publico, se occupava em denegrir com calumnias a reputação de todo o Portuguez honrado, tomou a si (não sabemos se de seu moto proprio, se instigado) a louca empresa de derribar a Camões, tratando o mesmo assumpto da descoberta da India: fez umas Oitavas ao Gama, e, como a rãa da fábula, perguntou a seus sequazes se sera maior que Camões. Respondêrão-lhe que não. Tornou a fazer outras, e repetindo a mesma pergunta, como lhe dessem a mesma resposta, cheio de raiva pizou aos pés a corneta; e, considerando melhor sua natureza e forças, dos heroes passou a cantar os burros. Com tudo o seu Oriente deve conservar-se como monumento de orgulho, e tambem as suas cartas a Attico, ainda que não seja senão pelo quinao, que ahi deo a Camões naquelles versos da Est. 37 do Canto V:

Quando uma noute estando descuidados
Na cortadora prôa vigiando.

Se estavão descuidados, (diz elle) como estavão vigiando? Que ignorancia! Estavão descuidados, porque o ceo estava limpo e o ar sereno, e não vião indicio de tempestade, nem cousa que lhes désse cuidado; e estavão vigiando, porque navegavão por mares desconhecidos, e porque era costume dos nossos mareantes (o qual inda hoje se conserva, porque os bons costumes não se devem perder) ter sempre de noute[{LXV}] vigias de prôa. E quem assim sabia a sua lingua, queria ser maior poeta que Camões?

Assim foi tratado em vida e depois de morto este Pregoeiro eterno da gloria nacional por aquelles que no fundo da alma se conhecião reos de lesa-nação, e por uns poucos de fanaticos e hypocritas. Mas da gente popular tão bem recebida e apreciada foi a sua obra, que no mesmo anno se fizerão duas impressões, e os soldados nas batalhas entoavão algumas Estancias della como seu canto de guerra, e elle mesmo tão admirado e respeitado, que quando apparecia em publico (o que era raro, porque nos ultimos tempos vivia em grande retiro) paravão todos, sem tirar os olhos delle, até o perderem de vista. E se morreo em tal desamparo (faça-se esta justiça aos Portuguezes, que em serem compadecidos e generosos a nenhum outro povo cedem) foi não só porque nessa desgraçada epocha se achavão todos os animos possuidos de terror com a recente catastrophe, e as calamidades publicas que se previão futuras, não davão lugar ao sentimento de males particulares, mas muito principalmente porque a sua miseria não era conhecida; pois que se mandava o seu Jao pedir esmola, era de noute, e sem dizer para quem. Este e outros casos taes, não raros n'uma tão grande e populosa cidade, derão causa á instituição de uma piedosa irmandade de homens plebeos, (em quem ordinariamente se encontrão mais virtudes que nos Grandes) a qual inda hoje existe, cujo fim he indagar pelos bairros se ha algum pobre envergonhado, e apregoar de noute pelas ruas sua morada, para que os cidadãos que puderem o[{LXVI}] mandem soccorrer. E o traductor infiel (Mickle) que ousou arremendar Camões com trapos da sua fábrica, e deste desastrado acontecimento tirou pretexto para desafogar o seu odio contra os Portuguezes, que nenhum mal lhe fizerão, tratando-os de nação barbara e inculta, devêra lembrar-se, que serem os bons sacrificados pelos maos, por lhe conhecerem o merecimento, cousa he, que em toda a parte todos os dias se vê; mas que no seculo desasete um Escritor insigne, com que hoje seus compatriotas tanto blasonão, fosse igualmente infeliz, polo não saberem apreciar, e que o seu livro, antes de impresso, fosse vendido pelo vil preço de cinco Libras, e depois de impresso, jazesse tantos tempos ignorado, de sorte que para saberem que o tinhão, fosse preciso haver quem lho mostrasse, he caso que só em Inglaterra nos consta que succedesse.

Foi Luis de Camões de mediana estatura; cabellos (quando moço) tão louros, que tiravão a açafroados; olhos vivissimos; nariz comprido, alto no meio, e grosso na ponta; rosto cheio, beiços grossos, e um tanto carregado da fronte; pelo que ao primeiro aspecto inculcava severidade; mas na conversação e trato era summamente affavel e jovial. Era liberal com os amigos, honrador dos benemeritos, rigido censor dos vicios, intrepido nos perigos, constante nas adversidades. Em todos os trances de fortuna conservou sempre a mesma serenidade de alma: de maneira que ja no leito da morte escrevendo a um seu amigo, lhe dizia gracejando: Quem ouvio dizer, que em tão pequeno theatro, como o de um pobre leito, [{LXVII}] quizesse a fortuna representar tão grandes desventuras? E eu, como se ellas não bastassem, me ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos males, pareceria especie de desavergonhamento. Emfim, de todas as virtudes foi ornado este grande homem; e a que nelle mais sobresahia, era um extremoso e desinteressado amor de patria, que da maneira mais evidente se manifestou em todo o discurso da sua trabalhosa vida, e nos ultimos momentos della, como lampada moribunda, inda despedio de si maior clarão: pois ja nos parocismos da morte, passando em resenha todas as suas acções, parece que nenhuma outra mágoa sentia, senão a de haver soltado n'um transporte d'ira aquellas palavras: Ingrata patria, não possuirás meus ossos. Porque julgava elle, que por maiores aggravos que um cidadão haja recebido da sua patria, nunca, nem por pensamento, deve procurar vingança. E querendo na sua derradeira hora deixar-nos um testimunho deste seu arrependimento, vendo-se em tal desamparo, sem ter ninguem a seu lado, escreveo a Dom Francisco de Almeida, que na comarca de Lamego andava allistando gente, uma carta onde se lião estas memoraveis palavras: Emfim, acabarei a vida; e aqui verão todos que tão amante fui da minha patria, que não contente de morrer nella, quiz tambem morrer com ella.

Foi enterrado sem distincção alguma na Igreja das Religiosas de S.ta Anna da Ordem de S. Francisco; e assim jazêrão seus ossos confundidos com os do vulgo sem nome até ao anno de 1595, em[{LXVIII}] que Dom Gonçalo Coutinho lhe mandou pôr sobre a sepultura uma campa lisa de marmore, e nella gravar este letreiro:

AQUI JAZ LUIS DE CAMÕES,
PRINCIPE
DOS POETAS DE SEU TEMPO.
VIVEO POBRE E MISERAVELMENTE,
E ASSI MORREO
ANNO DE MDLXXIX.
ESTA CAMPA LHE MANDOU AQUI PÔR
DOM GONÇALO COUTINHO, NA QUAL SE
NÃO ENTERRARÁ PESSOA ALGUMA.

Alguns annos depois lhe mandou abrir na mesma campa Martim Gonçalves da Camara o seguinte Epitaphio:

Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus,
Hic jacet heroe carmine Virgilius.
Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam.
Unam nobilitant Mars et Apollo manum.
Castalium fontem traxit modulamine: at Indo
Et Gangi telis obstupefecit aquas.
India mirata est, quando aurea carmina, lucrum
Ingenii, haut gazas, ex Oriente tulit.
Sic bene de patria meruit, dum fulminat ense:
At plus, dum calamo bellicosa facta refert.
Hunc Itali, Galli, Hispani vertere poetam:
Quaelibet hunc vellet terra vocare suum.
Vertere fas, aequare nefas: aequabilis uni
Est sibi: par nemo, nemo secundus erit.

Achamos em Pedro Mariz que um fidalgo Alemão escrevêra a um seu correspondente de Lisboa que lhe soubesse que sepultura tinha Camões, e quando[{LXIX}] a não tivesse sumptuosa, tratasse com a cidade lhe désse licença para trasladar seus ossos para Alemanha, onde lhe faria um tumulo superbissimo, igual aos dos mais famosos antigos. Mas o Senado da Camara attendendo á dignidade da nação, não consentio na proposta, talvez porque tivesse em vista fazer essa mesma honra ás cinzas de tão grande homem. Mas este projecto ficou depois em esquecimento até ao anno de 1775, em que o grande terremoto, sovertendo aquella Igreja, confundio os ossos debaixo das ruinas. Mas tempo virá em que a patria agradecida erija á sua memoria um pomposo monumento, que seja digno della, digno de tão insigne varão.[{LXX}]
[{LXXI}]