Oh inimigos maos da natureza,
Que injuriais a propria geração!
Degenerantes, baixos! Que fraqueza
De esforço, de saber e de razão
Vos fez que a clara estirpe, que se préza
De leal, fido e limpo coração,
Esqueçais dessa sorte? Mas respeito,
Que este dos nobres he o menor defeito.
E assim no ultimo quartel da vida se vio desamparado de todos e reduzido a tão esqualida miseria, que um escravo (antes verdadeiro amigo) que de Java trouxera, por nome Antonio, sahia de noute a pedir esmola para o sustentar; e ~ua mulata (Barbara se chamava ella) que pelas ruas de Lisboa andava vendendo mexilhões, condoida do seu desamparo, lhe ia todos os dias levar um pratinho do que trazia a vender, e de quando em quando lhe deixava tambem algum vintem do que havia vendido. Que desengano! De tantos que outrora se dizião seus amigos, só estes[{LIX}] achou fieis na sua adversa fortuna. Tempora si fuerint nubila, solus eris. E neste estado de desesperação parece que foi escrita aquella incomparavel Canção 11, que he um gemido da natureza, que retumbará no mundo em quanto nelle houver quem falle ou entenda a lingua Portugueza.
Um só da classe dos fidalgos, Rui da Camara, dizem escritores contemporaneos se dignára entrar na sua pobre morada: cuidarão nossos Leitores que iria para o soccorrer? Pois não; foi para o reprehender. Ha tanto (lhe disse o bom do fidalgo) que vos pedi me traduzisseis os sete Psalmos Penitenciaes, e ainda os não traduzistes? Nenhuma desculpa tendes que dar: tendo feito tantos versos e um tão formoso Poema, se me não servis, não he porque não possais; he, sim, porque não quereis. Senhor (lhe respondeo o poeta) quando eu fiz esse Poema e esses versos, era moço e favorecido das Damas, e tinha o necessario á vida; e agora não tenho espirito nem contentamento para nada, porque tudo isso me falta, e em tal miseria me vejo, que ahi está o meu Antonio a pedir-me um vintem para carvão, e não o tenho para lho dar. Sabía este Cavalheiro que Luis de Camões era poeta, para lhe pedir a traducção dos sete Psalmos Penitenciaes, e não sabia que era pobre, para lhe dar uma esmola.
Uma insigne affronta lhe fizerão ainda os Cortezãos: quando ElRei Dom Sebastião ia partir para a sua fatal jornada de Africa, lhe lembrárão levasse comsigo a Diogo Bernardes, para que este novo Tityro fosse testimunha ocular de suas proezas, e sahindo[{LX}] das selvas, onde andava homiziado, as celebrasse depois na tuba heroica. Mas tão generoso e magnanimo era Luis de Camões, que, não obstante esta injuria, affirma Severim de Faria, estava ja traçando outro poema, que pelos principios promettia não ser inferior ao primeiro, se o resultado da empresa não convertesse o canto em chôro.
Assim foi tratado este grande homem emquanto reinou Dom Sebastião, e muito peor ainda depois que subio ao throno o Cardial Dom Henrique: e como pouco depois viesse a cahir n'uma longa infirmidade, e por cúmulo de desgraça lhe morresse o seu verdadeiro amigo Antonio, que era o unico esteio de seus dias; opprimido de tantos males, o seguio elle poucos mezes depois á sepultura, no anno de 1579, com cincoenta e cinco de idade. Querem uns que morresse na mesma pobre casa onde morava, na rua de S.ta Anna, a qual depois da sua morte nunca mais foi habitada, outros que no Hospital; mas como todos concordão em que de casa de Dom Francisco Manoel lhe mandárão por caridade um lençol para lhe servir de mortalha, he fóra de toda a duvida que não morreo no hospital, porque todos os que morrem naquella piedosa casa, ahi achão mortalha e sepultura.
Em todos os povos, qualquer que fosse a forma de seu govêrno, hão sido sempre odiados e mais ou menos perseguidos, segundo as conjuncturas dos tempos, os summos e verdadeiros Escritores; isto he, os que á força do pensar e á elegancia do dizer unírão em summo grao o amor da verdade e da justiça. Não puderão as leis de Athenas proteger a innocencia[{LXI}] de Socrates contra as calumnias de um Melito, Seneca em Roma não pôde evitar a morte debaixo da tyrannia de um Nero; e a estes puderamos ajuntar uma infinidade de escritores desta classe, philosophos, poetas e oradores, que em diversos tempos e por diversos modos soffrêrão a mesma sorte. Mas Luis de Camões foi mais infeliz que todos: se lhe não fizerão beber a cicuta, se lhe não abrírão as veias, amargurarão-lhe a vida com toda a especie de desgosto, e depois de o haverem trazido de masmorra em masmorra, e de degredo em degredo envolto na mais esqualida miseria, com um refinamento de tyrannia, cuja descoberta estava reservada aos tempos modernos, o obrigárão a submetter seus escritos a uma junta de idiotas e hypocritas, e escurecer elle mesmo sua propria fama, rejeitando o que lhe agradava, para adoptar o que elles querião; e por fim de tudo o condemnárão a morrer de fome; morte muito mais cruel. E o mais he que, não costumando a inveja apascentar-se em cadaveres, ainda na sepultura não tem cessado de lhe inquietar as cinzas, conspirando-se contra todos os que tem querido levantar o véo que encobre o merecimento deste Escritor insigne. Primeiramente ao poema dos Lusiadas pretendêrão os da facção perseguidora antepor o da Ulyssea que, ainda que não destituido de merecimento, está mui longe não só de se lhe poder comparar em cousa alguma, mas até de dever ser classificado entre as obras de primeira ordem neste genero: depois como tivessem noticia que Manoel de Faria e Sousa estava imprimindo em Madrid os seus commentarios, tiverão a impudencia de[{LXII}] lhe escrever, pedindo-lhe com todo o empenho desacreditasse a Camões; e como este não désse ouvidos a tão infames supplicas, o denunciárão ao Tribunal da SANTA INQUISIÇÃO; o que constando ao pobre Faria, se foi valer dos Santos Inquisidores de Hespanha, para que mitigassem a santa raiva dos de Portugal, escudando com o seu parecer um folheto que escreveo em sua defesa delle, entitulado:
Informacion en favor de Manuel de Faria y Sousa, Caballero de la Orden de Christo, y de la Casa Real, sobre la acusacion que se hizo en el Tribunal del Santo Oficio de Lisboa, á los Commentarios que docta y judiciosa y Catolicamente escrevió á Las Lusiadas del doctissimo y profundissimo y solidissimo Poeta Christiano Luis de Camoens, unico ornamento de la Academia Española en este genero de Letras.
Deste folheto, que foi impresso em Madrid, anno de 1640, transcreveremos aqui na sua mesma lingua adoptiva a seguinte passagem, para que se veja com quanto encarniçamento foi perseguido pelo odio e pela inveja este grande homem e todos os que o ousárão louvar:
De los Acusadores, los mas declarados son dos, de cuya calidad y talento no diremos algo, asi por ser notorio, como porque nos deban esta piadosa cortesia. Diremos solo (por ser preciso á nuestra justicia) que son enemigos patentes del Acusado, contra quien se levantaron, porque no los celebró en estos Escritos, y les dió en ellos, y por cartas y de palabra á entender su engaño..... Y tambien[{LXIII}] son enemigos notorios de la luz del Poeta, como aves escuras, pues publican dilatados libelos difamatorios contra él, sobre que tambien el Comentador los abomina en varios lances: y á uno dellos doctrinó libremente por carta en respuesta de otra, con que le persuadia á escrivir contra el proprio Poeta, al tiempo que comenzaba á imprimir los Comentarios. De manera que lo que estos y otros pretenden viendose ofendidos y alcanzados con la luz del Poeta, que de nuevo les dió en los ojos, por haverla el Comentador sacado de la linterna en que estaba escondida, no es vedar este libro por quitar de los ojos Catolicos la representacion de las deidades, y lo osado de algunos discursos; sino por quitar de sus mismos ojos el resplandor que se los hostija y de los de los Letores aquellas cláusulas que descubren su flaquesa de vista.
Ambos ellos son asistidos de personas mayores en nacimiento y fortuna (si bien no mayores en el conocimiento destos estudios) que tambien se dan por ofendidos de que no siguiese el Comentador su parecer en afrentar á un Hombre, que hoy se vé reconocido por admirable de toda la Clase literaria de Europa; porque en toda ella solo ellos deshonran á Luis de Camoens. Solo ellos (ellos solo lo creen) saben mas que las Academias universales, que á una mano publican la excelencia de sus obras.