No decimo quinto escreveo ElRei Dom Duarte O Leal Conselheiro, que se conserva na bibliotheca Real de París, e dous tratados entitulados, um Da Misericordia, outro Do Regimento da justiça[{X}] e Officiaes della etc. Seu irmão o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, que veio a ser depois Regente do Reino durante a menoridade de Affonso 5.º, tambem escreveo algumas obras politicas e moraes em prosa e verso, algumas das quaes se imprimírão em Leiria 6 annos depois da invenção da imprensa, e traduzio do Latim e dedicou a seu irmão Dom Duarte Cicero de Officiis, e Vegetius de re militari. Ayres Telles de Menezes, que por esse mesmo tempo floresceo, foi elegante poeta; e delle nos conservou Rezende no seu Cancioneiro algumas poesias; e para que se veja a que estado de cultura e perfeição havia ja então chegado a nossa bella lingua, transcreveremos aqui a seguinte
ODE
De pungentes estimulos ferido
O Regedor dos ceos e humilde terra,
Sôbre ti manda, desastrada Lysia,
Effeitos da sua íra.
A peste armada destruir teu povo
A um seu leve aceno vôa logo:
Estraga, fere, mata sanguinosa,
Despiedada e crua.
Despenhada no abysmo da ruina,
Fugir pretendes aos accesos raios,
Qual horrida phantasma, porém logo
Desfallecida cahes.[{XI}]
O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia,
Mas inda muito mais os teus errores
Que provocar fizerão contra ti
Contagião mortal.
Dos Ceos apagar cuida a justa sanha
Da penitencia com as bastas ágoas,
Ja que revel e surda te mostraste
A seus mudos avisos.
Então verás ornada a nobre frente,
Como nos priscos tempos que passárão,
De esclarecidos louros, sinal certo
De teus almos triumphos.
Por esse mesmo tempo Fernão Lopes, Duarte Galvão, Gomes Eanes de Zurara começárão a encommendar á memoria as façanhas dos Portuguezes, escrevendo regularmente as Chronicas dos nossos Reis des de a fundação da monarchia.
No principio do decimo sexto seculo Bernardim Ribeiro e Gil Vicente introduzírão, aquelle o estilo bucolico, este as representações theatraes. Francisco de Moraes escreveo o seu excellente Romance de Cavalleria, O Palmeirim de Inglaterra, do qual o mesmo Cervantes (que erradamente o attribue a ElRei Dom Duarte) faz o seguinte elogio: Esta palma de Inglaterra se guarde y se conserve, como cosa unica; y se haga para ella otra caja de oro como la que halló Alejandro en los despojos de Dario, que[{XII}] la diputó para guardar en ella las obras del poeta Homero. Este libro, Señor compadre, tiene autoridad por dos cosas; la una porque él por si es muy bueno, y la otra porque es fama que le compuso un Rey de Portugal. Todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonisimas y de grande arteficio, las razones cortesanas y claras, que guardan y miran el decoro dei que habla con mucho entendimiento. Digo pues.... que este y Amadis de Gaula queden libres del fuego; y todos los demas, sin hacer mas cala ni cata, perescan. Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros, cognominado o Livio Portuguez, escrevêrão a historia das nossas descobertas e conquistas d'Asia. Sá de Miranda introduzio a verdadeira Comedia e a Satyra dos costumes, em que sobretudo he insigne. E finalmente, quando ja Portugal se avizinhava á fatal epocha da sua decadencia, veio tambem a produzir, como Roma, o seu Virgilio, dando ás letras um Camões; genio criador e sublime, que nascido para ser grande em tudo, se com soberano alento embocou a trombeta heroica, não pulsou com menor destreza a lyra, nem tirou da frauta sons menos harmoniosos e suaves.
Do seu Poema Epico ja n'outro lugar dissemos, não o que poderiamos dizer, mas o que julgámos bastante. Diremos tambem agora alguma cousa de suas poesias lyricas. E começaremos por observar que[{XIII}] se nenhum escritor foi mais desprezado e perseguido de seus compatriotas, tambem nenhuma nação ha sido tão castigada, como a Portugueza das perseguições e desprezos, que soffreo este grande homem, não della, mas do seu governo, e dos grandes e poderosos, de cujos crimes he quasi sempre o povo quem vem a pagar as penas. Porque não lhe tendo sido possivel, pela miseria em que viveo, dar á luz as suas poesias sôltas, não as polio nem limou, nem deixou collecção dellas; e assim as mais se perdêrão, e as outras, espalhadas por mãos de muitos, se forão corrompendo nas copias, de sorte que inda as que menos damno soffrêrão, andão hoje nas impressões mui diversas do que erão, quando sahírão da penna de seu autor. E assim veio esta culpa de alguns a ter para nós as mesmas consequencias, que teve a de Adam para a humanidade; isto he, cahir dos culpados sôbre os innocentes e estender-se a todas as gerações. E se não foi mais amplo este castigo, a Fernão Rodrigues Lobo Surrupita o devemos. Este, com incansavel diligencia juntando algumas obras varias, que pôde alcançar, as deo pela primeira vez á luz no anno de 1595, assim desfiguradas como as achou: com o que não só evitou perderem-se estas, mas com o seu exemplo instigou outros a proseguir na mesma diligencia: e assim se forão descobrindo mais algumas, que pelo tempo adiante se forão dando ao prelo.[{XIV}] De modo que podemos dizer que em todos os estilos nos ficou do nosso poeta apenas uma pequena amostra, para que pelo dedo se conhecesse o gigante. Porém de tal quilate he o ouro, que essas pequenas reliquias bástão para elevar o cume do nosso Parnaso a tal altura, que lhe não fique superior o de nenhuma outra nação estranha.
Porque nos Sonetos he eminente o nosso poeta; e para lhe obter a palma sôbre quantos neste genero de composição se tem exercido, bastaria, quando outros muitos não tivesse de igual belleza, só este, que he o 72:
SONETO
Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquella alma me apparece,
Que para mim foi sonho nesta vida.
Lá n'uma soidade, onde estendida
A vista pelo campo desfallece,
Corro apos ella; e ella então parece
Que de mim mais se alonga, compellida.
Brado: Não me fujais, sombra benina.
Ella, os olhos em mim co'um brando pejo
Como quem diz que ja não pode ser,
Torna a fugir-me: tórno a bradar: Dina...
E antes que diga mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.[{XV}]
Diante deste desapparece toda a caterva de Sonetos que tem inundado Italia e Hespanha. Impossivel parece que com palavras tão vulgares se podesse pintar tão bella imagem, exprimir tal sentimento. Da outra banda do Lethes, confinando com os Elysios, descortinou a imaginação de Virgilio umas dilatadas campinas, a que na sua Lingua Latina chamou Lugentes campi, que o nosso Franco Barreto traduzio: Campos sem luz, e nós diremos: Campos da Saudade. Nestes campos e pela mesma Saudade parece que foi ditado este maravilhoso Soneto, que em nossa fraca opinião inda não foi igualado, nem será nunca excedido. E como este puderamos citar muitos.
Nas Canções deixou a perder de vista a Petrarca, Bembo, e a quantos a este genero de composição se tem dado: o que melhor poderá ver quem quizer comparar umas com outras.
Nas Odes, como em todo outro genero de poesia, todos sabem que ha diversos estilos para os diversos assumptos. O que a cada um destes convem, a mesma natureza delle o indica; e tanto erraria o que descrevesse um prado florido, um ribeiro socegado, as graças de uma pastora, ou Diana exercendo as dansas e choreas de suas nymphas pelos cabeços do monte Cynthio, no mesmo estilo em que se deve descrever o mar impetuoso, o combate dos Athletas, ou Jove fulminando os gigantes, como vice versa.[{XVI}] Pindaro, Anacreonte, e Horacio são os tres poetas que neste genero se nos propõe por modelos. Mas que differença de estilo entre Horacio, Anacreonte, e Pindaro! Certamente não he menor que a que vai do bucolico ao lyrico, ou do lyrico ao epico. O nosso Camões, profundo conhecedor da natureza, e mestre em todos os estilos, habilmente soube escolher aquelle que mais convinha ás materias que tratava, sempre natural e facil, sempre elegante e florido, e muitas vezes sublime. E as suas Odes, ainda que não tenhão o requisito, que hoje se tem por essencial, de serem inintelligiveis, são pelos entendedores summamente louvadas, e até não falta quem as prefira ás Canções; mas desta opinião não somos, ainda que pensamos com Faria e Sousa, que a 4.ª, 6.ª, 9.ª e 10.ª tarde serão excedidas; e o mesmo diriamos da 1.ª se não andára viciada.