No estilo bucolico, de que o poeta parece mais se aprazia, e em que des de a puericia exerceo a sua Musa, he onde alguns lhe querem negar a palma, para a concederem a Bernardes. Verdade he que Bernardes, depois da morte de Camões, appareceo em publico mui bem ataviado; mas os que lhe conhecião os cabedaes, admirados de o verem tão ricamente vestido, logo disserão uns para os outros: Donde vem a Pedro fallar gallego? e Manoel de Faria e Sousa o chamou a juizo, e convencendo-o de furto,[{XVII}] o condemnou a despir na praça e restituir a seu dono parte dos vestidos roubados; sendo justo e de razão que quem o alheio veste, na praça o dispa. Mas deixando a Bernardes para outro processo, que intentamos fazer-lhe sobre estes mesmos roubos, passemos a examinar se he ou não exacto o juizo, que Luis de Camões se não mostrára tão grande poeta no genero pastoril, como no lyrico e heroico.
Surropita no seu prologo á primeira edição das Rimas foi o primeiro que emittio esta opinião desfavoravel ao poeta, quanto ao estilo bucolico, dizendo, depois de o louvar devidamente nos mais: Oxalá pudera humilhar a grandeza do seu engenho, conformando-se mais com o estilo bucolico! Da mesma sorte o julgou Faria e Sousa, a quem seguírão depois o Padre Thomaz de Aquino e outros, que sem se darem ao trabalho de profundar as cousas, querem decidir de tudo, sem appellação nem aggravo. Vejamos se tem razão.
Assenta este juizo principalmente sobre a Egloga 1.ª, que o poeta reputava pela melhor de quantas havia feito, e sobre a 6.ª, que elle de certo não tinha pela peor. E este voto do mesmo autor, que era tão grande homem, e no julgar de suas proprias obras nenhum interesse podia ter em exaltar umas para abater outras, ja he de algum momento. Porque, sendo a poesia, como a pintura, uma imitação da natureza,[{XVIII}] segue-se necessariamente que os melhores poetas e pintores são os mais profundos observadores e conhecedores da natureza, porque ninguem a póde perfeitamente imitar, sem que profundamente a conheça. Grandes imitadores, e portanto profundos conhecedores da natureza forão na poesia Homero, Virgilio, Camões etc., e na pintura Apelles, Raphael e Miguel Angelo; e mais val o voto de qualquer destes poetas ou pintores, que o de muitos milhões de versejadores ou borradores. Disse Camões que a sua Egloga de Umbrano e Frondelio, que Surropita e Faria tachárão de lavantada no estilo mais do que convinha ao genero bucolico, lhe parecia a elle a melhor de quantas fizera, isto he, que nella estava melhor imitada a natureza, que em todas as mais; e nós (se tambem nos he permittido interpor nossa humilde opinião) a temos não só pela melhor de quantas o poeta escreveo, mas de quantas havemos lido. E diremos o porque.
Preceito he, ditado pela mesma natureza, que tenha cada genero de poesia seu estilo particular, e que o som da frauta se não confunda com o da lyra ou da trombeta; mas tambem he preceito da natureza que, pois a choça e o throno estão igualmente sujeitos aos revezes da fortuna, e na vida pastoril pódem occorrer varios casos que dem assumpto ao poeta; se levante ou abaixe o estilo segundo for mais ou menos[{XIX}] alto o assumpto, e que se o pastor se propõe louvar o Consul se tornem as florestas dignas delle.
Si canimus sylvas, sylvae sint Consule dignae.
Assim o entendeo e fez Virgilio, assim o entendeo e fez Camões, e assim o estabeleceo depois em preceito o judicioso Boileau na sua arte poetica.
L'Églogue quelquefois
Rend dignes du Consul la campagne et les bois.
E contra estas autoridades e a razão em que se ellas fundão mal podem sustentar-se em campo os que pretendem que neste genero de poesia se não possa tratar senão assumptos de lana caprina na lingoagem dos trivios.
Na sua Egloga 1.ª lamenta o nosso poeta as mortes de Dom Antonio de Noronha e do Principe Dom João, que profundamente sentio, aquella como verdadeiro amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as consequencias de tão desastrado acontecimento. E como o forte sentir produz o forte e elevado pensar, algumas vezes se eleva, assim na sentença como na dicção, até tocar as raias prescriptas a esta especie de poesia, mas não as transcende nunca; nem as figuras e imagens de que se serve, as estranha o estilo bucolico; e muito mais n'uma lingua, em que essas mesmas imagens e figuras de tal sorte estão recebidas, que até os mais rudos camponezes rara vez se exprimem sem ellas. Mas inda[{XX}] quando fossem alheias da linguagem vulgar, quem as estranharia na poesia, que de sua natureza se deve levantar do uso commum de fallar? Permitte-se a Virgilio dizer n'uma Egloga:
Ipsae te, Tityre, pinus,
Ipsae te fontes, ipsae haec arbusta vocabant.
Estes pinheiros, Tityro, estas fontes,
Estes mesmos arbustos te chamavão.