e não se hade consentir a Camões dizer:

Canta agora, pastor, que o gado pasce
Entre as humidas hervas socegado,
E lá nas altas serras onde nasce,
O sacro Tejo á sombra recostado
Com seus olhos no chão, a mão na face,
Está para te ouvir apparelhado;
E com silencio triste estão as Nymphas
Dos olhos destillando claras lymphas?

Emfim nesta admiravel Egloga nada falta da parte do poeta; se alguma cousa faltar, será da parte do leitor. Passemos agora á 6.ª

Nesta Egloga mistura o poeta o estilo pastoril e o piscatorio, de que elle foi entre nós o primeiro introductor, e que levou a tal perfeição, que desanimou os que depois se seguírão a ponto, que ficou quasi de todo esquecido. He o seu argumento uma contenda entre um pastor e um pescador sobre qual dos estilos deve ter a preferencia, cantando cada um a belleza[{XXI}] da sua amada. E ja daqui se vê que um e outro deve levantar o estilo quanto puder, e pôr nesta porfia todo o seu cabedal, para não ficar vencido. Esta Egloga he onde Faria mais se funda para dizer que o poeta se não podia domar na força do seu enthusiasmo. Mas tão longe está de justificar este juizo, que della mesma nos queremos servir para mostrar a pasmosa facilidade, com que o poeta sabia variar de tom e passar de um estilo a outro. E sem gastar mais palavras, passemos a analysar cada uma de suas Estancias, porque a verdade he facil de ver-se, e por si mesma saltará aos olhos.

Dá o pastor princípio á contenda, invocando as divindades campestres deste modo:

AGRARIO.

Vós, semicapros deoses do alto monte,
Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;
E vós, deosas do bosque e clara fonte,
E dos troncos que vivem largos anos;
Se tendes prompta um pouco a sacra fronte
A nossos versos rusticos e humanos,
Ou me dai ja a capella de loureiro,
Ou penda a minha lyra d'um pinheiro.

Sublime e admiravel invocação! Mas ouçamos agora o pescador

ALICUTO.

Vós, humidas deidades deste pégo,
Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo;[{XXII}]
Vós, Nereidas do sal em que navego,
Por quem do vento a furia pouco temo;
Se a vossas sacras aras nunca nego
O congro nadador na pá do remo,
Não consintais que a musica marinha
Vencida seja aqui na lyra minha.

Que terão que dizer esses Senhores a estas duas Estancias? Dirão que são demasiado sublimes, e que estão fóra do natural, porque a este simples, a este natural, a este sublime não podem elles chegar. Mas não lhes demos ouvidos, e continuemos a prestar attenção aos nossos contendores. Vejamos com que despejo entrão na lide.

AGRARIO.

Pastor se fez um tempo o moço louro
Que do pae as carretas move e guia;
Ouvio o rio Amphryso a lyra d'ouro,
Que o seu claro inventor alli tangia.
Io foi vacca, Jupiter foi touro
Mansas ovelhas junto d'ágoa fria
Guardou formoso Adonis, e tornado
Em bezerro Neptuno foi ja achado.