A esta formosa Estancia em louvor da vida campestre oppõe o pescador a seguinte, exaltando a sua profissão.
ALICUTO.
Pescador ja foi Glauco, e deos agora
He do mar, e Protêo phocas guarda;[{XXIII}]
Nasceo no pégo a deosa, qu'he senhora
Do amoroso prazer, que sempre tarda.
Se foi bezerro o deos que cá se adora,
Tambem ja foi delphim. Se se resguarda,
Vê-se que os moços pescadores erão,
Que o escuro enigma ao primo vate derão.
Agora passa o vaqueiro a queixar-se da frieza com que a sua pastora recebe as suas finezas.
AGRARIO.
Formosa Dinamene, se dos ninhos
Os implumes penhores ja furtei
Á doce philomela, e dos murtinhos
Para ti (fera!) as flores apanhei;
E se os crespos madronhos nos raminhos
Com tanto gosto ja te presentei,
Porque não dás a Agrario desditoso
Um só revolver d'olhos piedoso?
Responde-lhe o seu adversario com uma Estancia do mesmo genero, segundo os preceitos do canto amebeo, ou alternado.
ALICUTO.
Para quem trago d'ágoa em vaso cavo
Os curvos camarões vivos saltando?
Para quem as conchinhas ruivas cavo
Na praia, os brancos buzios apanhando?
Para quem de mergulho no mar bravo
Os ramos de coral vou arrancando,
Senão para a formosa Lemnoria,
Que co'um só riso a vida me daria?[{XXIV}]
Agora vão descrever, um as furias do ciume, outro as da desesperação de ver galardoado o seu amor. Vejamos como sahem da empresa.
AGRARIO.
Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,
D'átras nuvens vestido, horrido e feio,
Ennegrecendo á vista o ceo superno,
Quando os troncos arranca o rio cheio;
Raios, chuvas, trovões, um triste inferno
Que ao mundo mostra um pallido receio:
Tal o amor he cioso a quem suspeita
Que outrem de seu trabalho se aproveita.
ALICUTO.
Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante
Furor lançando flammas e bramidos,
Quando as pasmosas serras traz diante,
Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos;
A braços derribando o ja nutante
Mundo co'os elementos destruidos;
Assim me representa a phantasia
A desesperação de ver um dia.
Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas se as estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dicção. Pelos pensamentos seguramente não he, porque ninguem dirá que está fóra do alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhança que tem as furias do ciume, ou da desesperação com as tempestades do inverno,[{XXV}] ou com o mar agitado pelos ventos. Pela dicção tambem não, porque se o pensamento não he estranho, tambem esta o não póde ser, quando tão perfeitamente se lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e muito mais quando as mesmas figuras e imagens de que o poeta aqui usa, andão na boca do povo de sorte, que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez que o ceo está toldado de negras nuvens etc., ou a um marinheiro ou pescador que o vento traz todo o mar em serras diante de si; que parece querer destruir a terra etc. A differença está em que onde o pastor diria coberto ou toldado, diz o poeta vestido, e onde o marinheiro diria abalado, diz o poeta nutante, para se levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto não ha aqui impropriedade alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e palavras. E desta mutua conveniencia e propriedade resulta esta viveza de pintura, esta sublimidade, de que se espanta Faria. Porém sem razão se espanta, porque fóra do natural não ha sublime, e o que he natural não se estranha. Nem se persuada ninguem que se o poeta aqui se elevou, foi porque não podia domar-se; que mui de proposito o fez, por assim julgar que o devia fazer. Porque não ha poeta, que melhor soubesse variar de tom, pintar os objectos com propriedade e viveza, e seguir com a phrase o pensamento. Senão veja-se nas[{XXVI}] Estancias logo seguintes como ja serpeia manso regato o que inda ha pouco era rio caudaloso.