Senhora ja desta alma, perdoae
De hum vencido de Amor os desatinos,
E sejão vossos olhos tão beninos
Com este puro amor, que d'alma sae.
A minha pura fé sómente olhae,
E vêde meus extremos se são finos;
E se de alguma pena forem dinos,
Em mim, Senhora minha, vos vingae.
Não seja a dor que abraza o triste peito
Causa por onde pene o coração,
Que tanto em firme amor vos he sujeito.
Guardae-vos do que alguns, dama, dirão,
Que sendo raro em tudo vosso objeito,
Possa morar em vós ingratidão.

CCLXXIX.

Doce sonho, suave e soberano,
Se por mais longo tempo me durára!
Ah quem de sonho tal nunca acordára,
Pois havia de ver tal desengano!
Ah deleitoso bem! ah doce engano!
Se por mais largo espaço me enganára!
Se então a vida misera acabára,
De alegria e prazer morrêra ufano.
Ditoso, não estando em mi, pois tive
Dormindo o que acordado ter quizera.
Olhae com que me paga meu destino!
Em fim, fóra de mim ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
Pois sempre nas verdades fui mofino.[{141}]

CCLXXX.

Diana prateada, esclarecida
Com a luz que do claro Phebo ardente,
Por ser de natureza transparente,
Em si, como em espelho, reluzia,
Cem mil milhões de graças lhe influia,
Quando me appareceo o excellente
Raio de vosso aspecto, diferente
Em graça e em amor do que sohia.
Eu vendo-me tão cheio de favores,
E tão propinquo a ser de todo vosso,
Louvei a hora clara, e a noite escura,
Pois nella déstes côr a meus amores:
Donde collijo claro que não posso
De dia para vós ja ter ventura.

CCLXXXI.

Em quanto Phebo os montes accendia
Do ceo com luminosa claridade,
Por conservar illesa a castidade
Na caça o tempo Delia despendia.
Venus, qu' então de furto descendia
Por captivar de Anchises a vontade,
Vendo Diana em tanta honestidade,
Quasi zombando della, lhe dizia:
Tu vás com tuas redes na espessura
Os fugitivos cervos enredando;
Mas as minhas enredão o sentido.
Melhor he (respondia a deosa pura)
Nas redes leves cervos ir tomando,
Que tomar-te a ti nellas teu marido.[{142}]

CCLXXXII.

N'hum tão alto lugar, de tanto preço,
Este meu pensamento posto vejo,
Que desfallece nelle inda o desejo,
Vendo quanto par mi o desmereço.
Quando esta tal baixeza em mi conheço,
Acho que cuidar nelle he grão despejo,
E que morrer por elle me he sobejo
E mór bem para mi, do que mereço.
O mais que natural merecimento
De quem me causa hum mal tão duro e forte,
O faz que vá crescendo de hora em hora.
Mas eu não deixarei meu pensamento,
Porque inda qu'este mal me causa a morte,
Un bel morir tutta la vita honora.

CCLXXXIII.