Quantas penas, Amor, quantos cuidados,
Quantas lagrimas tristes sem proveito,
De que mil vezes olhos, rosto e peito,
Por ti, cego, me viste ja banhados;
Quantos mortaes suspiros derramados
Do coração por tanto a ti sujeito,
Quantos males, em fim, tu me tens feito,
Todos forão em mi bem empregados.
A tudo satisfaz (confesso-te isto)
Huma só vista branda e amorosa
De quem me captivou minha ventura.
Oh sempre para mi hora ditosa!
Que posso temer ja, pois tenho visto,
Com tanto gôsto meu, tanta brandura?[{143}]
CCLXXXIV.
Posto me t~ee fortuna em tal estado,
E tanto a seus pés me t~ee rendido!
Não tenho que perder, ja de perdido,
Nem tenho que mudar, ja de mudado.
Todo bem para mi he acabado:
D'aqui dou o viver ja por vivido;
Que aonde o mal he tão conhecido,
Tambem o viver mais será'scusado.
Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convem:
E curarei hum mal com outro mal.
E pois do bem tão pouco bem espero,
Ja que o mal este só remedio tem,
Não me culpem em qu'rer remedio tal.
CCLXXXV.
Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes,
Y en lágrimas pasais la noche y dia,
Mirad si es llanto este que os envia
Aquella por quien vos tantas vertistes:
Sentid, mis ojos, bien esta que vistes;
Y si ella lo es, oh gran ventura mia!
Por muy bien empleadas las habria
Mil cuentos que por esta sola distes.
Mas una cosa mucho deseada,
Aunque se vea cierta, no es creida,
Cuanto mas esta, que me es enviada.
Pero digo, que aunque sea fingida,
Que basta que por lágrima sea dada,
Porque sea por lágrima tenida.[{144}]
CCLXXXVI.
Que póde ja fazer minha ventura,
Que seja para meu contentamento?
Ou como fazer devo fundamento
De cousa que o não t~ee, nem he segura?
Que pena póde ser tão certa e dura,
Que possa ser maior que meu tormento?
Ou como receará meu pensamento
Os males, se com elles mais se apura?
Como quem se costuma de pequeno
Com peçonha criar por mão sciente,
Da qual o uso ja o t~ee seguro:
Assim de acostumado co'o veneno,
O uso de soffrer meu mal presente
Me faz não sentir ja nada o futuro.[{145}]