AO MESMO

Olhae que dura sentença
Foi amor dar contra mi!
Que porqu'em vós me perdi,
Em vós me busque a doença.
Claro está,
Que em vós só me achará;
Qu'em mi, se me vem buscar,
Não poderá mais achar,
Que a fórma do que foi ja.
Que s'em vós Amor se pôs,
Senhora, he forçado assi,
Que o mal, que me busca a mi,
Que vos faça mal a vós.
Sem mentir,
Amor me quiz destruir
Por modo nunca cuidado,
Pois ha de ser ja forçado
Pezar-vos de vos servir.
Mas sois tão desconhecida,
E são meus males de sorte,
Que vos ameaça a morte,
Porque me negais a vida.
Se por boa [{56}]
Tal justiça se pregoa;
Quando desta sorte for,
Havei vós perdão de Amor,
Que a parte ja vos perdoa.
Mas o que mais temo, emfim,
He que nesta differença,
Que se não torne a doença,
Se me não tornais a mim.
De verdade,
Que ja vossa humanidade
De que se queixe não tem;
Pois para as almas tambem
Fez Amor enfermidade.

—oOo—

A HUMA DAMA VESTIDA DE DÓ.

Mote.

De atormentado e perdido,
Ja vos não peço, senão
Que tenhais no coração
O que tendes no vestido.

Volta.

Se de dó vestida andais
Por quem ja vida não tem
Porque não o haveis de quem
Vós tantas vezes matais?
Que brado sem ser ouvido,
E nunca vejo senão
Cruezas no coração,
E grande dó no vestido. [{57}]

—oOo—

A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDO-SE COM HUMA VÉLA NO ROSTO.