Mote.
Da doença, em que ora ardeis,
Eu fôra vossa mézinha
Só com vós serdes a minha.
Voltas.
He muito para notar
Cura tão bem acertada,
Que podereis ser curada
Somente com me curar.
Se quereis, Dama, trocar,
Ambos temos a mézinha,
Eu a vossa, e vós a minha.
Olhae, que não quer Amor,
(Porque fiquemos iguais)
Pois meu ardor não curais,
Que se cure vosso ardor. [{54}]
Eu cá sinto vossa dor;
E se vós sentis a minha,
Dae e tomae a mézinha.
—oOo—
OUTRO
Deo, Senhora, por sentença
Amor, que fosseis doente,
Para fazerdes á gente
Doce e formosa a doença.
Voltas.
Não sabendo Amor curar,
Foi a doença fazer
Formosa para se ver,
Doce para se passar.
Então vendo a differença
Que ha de vós a toda a gente,
Mandou, que fôsseis doente,
Para glória da doença.
E digo-vos de verdade,
Que a saude anda invejosa,
Por ver estar tão formosa
Em vós essa enfermidade.
Não façais logo detença,
Senhora, em estar doente,
Porque adoecerá a gente,
Com desejos da doença.
Qu'eu por ter, formosa Dama,
A doença, qu'em vós vejo,
Vos confesso, que desejo [{55}]
De cahir comvosco em cama.
Se consentis, que me vença
Deste mal, não houve gente
Da saude tão contente,
Como eu serei da doença.
—oOo—