A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR.

Mote.

Qual terá culpa de nós
Neste mal, que todo he meu?
Quando vindes, não vou eu,
Quando vou, não vindes vós.

Volta.

Reinando Amor em dous peitos,
Tece tantas falsidades,
Que de conformes vontades
Faz desconformes effeitos.
Igualmente vive em nós;
Mas por desconcêrto seu
Vos leva, se venho eu,
Me leva, se vindes vós.

—oOo—

MOTE SEU.

Descalça vai pela neve:
Assi faz quem Amor serve.

Voltas.

Os privilegios, que os Reis
Não pódem dar, póde amor, [{61}]
Que faz qualquer amador
Livre das humanas leis.
Mortes e guerras crueis,
Ferro, frio, fogo e neve,
Tudo soffre quem o serve.
Moça formosa despreza
Todo o frio, e toda a dor.
Olhae quanto póde Amor
Mais que a propria natureza.
Medo, nem delicadeza
Lh'impede que passe a neve.
Assi faz quem Amor serve.
Por mais trabalhos que leve,
A tudo se off'receria;
Passa pela neve fria,
Mais alva que a propria neve;
Com todo frio se atreve.
Vêde em que fogo ferve
O triste, que a Amor serve.