—oOo—
OUTRO ALHEIO
A dor que a minha alma sente,
Não na sabe toda a gente.
Voltas.
Qu'estranho caso de Amor!
Que desejado tormento!
Que venho a ser avarento
Das dores de minha dor!
Por me não tratar peor, [{62}]
Se se sabe, ou se se sente,
Não na digo a toda a gente.
Minha dor e causa della
De ninguem ouso fiar;
Que sería aventurar
A perder-me, ou a perdella.
E pois só com padecella,
A minha alma está contente,
Não quero que o saiba a gente.
Ande no peito escondida,
Dentro n'alma sepultada;
De mi só seja chorada,
De ninguem seja sentida.
Ou me mate, ou me dê vida,
Ou viva triste ou contente,
Não ma saiba toda a gente.
—oOo—
OUTRO SEU
D'alma, e de quanto tiver,
Quero que me despojeis,
Com tanto, que me deixeis
Os olhos para vos ver.
Volta.
Cousa este corpo não tem,
Que ja não tenhais rendida:
Despois de tirar-lhe a vida,
Tirae-lhe a morte tambem.
Se mais tenho que perder,
Mais quero que me leveis, [{63}]
Com tanto que me deixeis
Os olhos para vos ver.