Senhor, mais não pergunteis.
Porque outra cousa de mi [{443}]
Sabei que não sabereis.
De vós agora sabei,
O que não tendes sabido:
Se quereis ágoa, bebei;
Se andais por dita perdido,
Eu vos encaminharei.

VENADORO.

Senhora, eu não vos pedia
Que ninguem m'encaminhasse;
Que o caminho qu'eu queria,
Se o eu agora achasse,
Mais perdido me acharia.
Não quero passar daqui;
E não vos pareça espanto
Qu'em vos vendo me rendi;
Porque quando me perdi,
Não cuidei de ganhar tanto.

FLORIMENA.

Senhor, quem na serra mora
Tambem entende a verdade
Dos enganos da cidade:
Vá-se embora, ou fique embora,
Qual for mais sua vontade.

VENADORO.

Oh lindissima donzella,
A quem a ventura ordena
Que me guie como estrella!
Quereis-me deixar a pena,
E levar-me a causa della?
E ja que vos conjurastes
Vós e Amor para matar-me, [{444}]
Oh não deixeis d'escutar-me!
Pois a vida me tirastes,
Não me tireis o queixar-me!
Qu'eu, em sangue e em nobreza
O claro Ceo me extremou;
E a Fortuna me dotou
De grandes bens e riqueza,
Que sempre a muitos negou.
Andando caçando aqui,
Apos hum cervo ferido,
Permittio meu fado assi,
Que andando dos meus perdido,
Me venha perder a mi.
E porqu'inda mais passasse
Do que tinha por passar,
Buscando quem m'ensinasse,
Por que via me tornasse,
Acho quem me faz ficar.
Que vingança permittio
A fortuna n'hum perdido!
Oh que tyranno partido,
Que quem o cervo ferio,
Vá como cervo ferido!
Ambos feridos n'hum monte,
Eu a elle, outrem a mi:
Huma differença ha aqui,
Qu'elle vai sarar á fonte,
E eu nella me feri.
E pois que tão transformado
Me tẽe vossa formosura,
Hum de nós troque o estado. [{445}]
Ou vós para o povoado,
Ou eu para a espessura.

FLORIMENA.

Dos arminhos he certeza,
Se lhe a cova alguem çujar,
Morar fóra, antes d'entrar:
D'estimar muito a limpeza
Pola vida a vai trocar:
Tambem quem na serra mora
Tanto estima a honestidade,
Que antes toma ser pastora,
Que perder a honestidade
A trôco de ser Senhora.
Se mais quereis, esta fonte
Vos descubra o mais de mim:
O que ella vio, ella o conte;
Porque eu vou-me para o monte,
Porque ha ja muito que vim.

SCENA III.