VENADORO.

Ó linda minha inimiga,
Gentil pastora, esperae!
Pois que tanto amor me obriga,
Consenti-me que vos siga;
Vá o corpo onde alma vae.
E pois por vós me perdi,
E neste estado Amor pôs
Os olhos com que vos vi, [{446}]
Pois os deixaste sem mi,
Oh não os deixeis sem vós!
Porque a Fortuna me disse
Que nas serras, onde andais,
Em estes extremos tais,
Não era bem que vos visse
Para não ver de vós mais.
E pois Amor se quiz ver
Da livre vida vingado,
Em que eu sohia viver;
Faça em mi o que quizer,
Que aqui vou ao jugo atado.

SCENA IV.

Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo.

LUSIDARDO.

Oh Santo Deos verdadeiro,
A quem o mundo obedece!
Meu filho não apparece.
E que me dizeis, Monteiro?

MONTEIRO.

Digo-lhe que m' entristece.
Qu'eu corri por esses montes,
Bem quinze leguas, ou mais,
E busquei polos casais,
Por serras, montes e fontes,
Sem ver novas, nem sinais.
Toda a gente que levou,
Buscando-o, muito cansada [{447}]
Pelo mato anda espalhada;
Mas ainda ninguem tomou,
Que soubesse delle nada.

LUSIDARDO.

Oh fortuna nunca igual!
Quem me fara sabedor
De meu filho e meu amor?
Que se he muito grande o mal,
Muito mor he o temor.
Quem tolhe que não achasse
Algum leão temeroso
N'algum monte cavernoso,
Que sua fome fartasse
Em seu corpo tão formoso?
Quem ha que saiba, ou que visse,
Que das montanhas erguidas
Algum monstro não sahisse,
E com seu sangue tingisse
As hervas nellas nascidas?
Oh filho! vai-me a lembrar
Quantas vezes os mandava
Que deixasseis o caçar!
Não cuidei de adivinhar
O que Fortuna ordenava.
Eu irei, filho, buscar-vos
Por esses montes, por hi,
Ou a perder-me, ou cobrar-vos;
Que morte que quiz matar-vos,
Quero que me mate a mi.
Onde fostes fenecido,
Seja tambem vosso pae; [{448}]
Ser-me-ha acontecido,
Como a virote que vae
Buscar outro que he perdido.
Vós só haveis de ficar,
Filodemo, encarregado
Para esta casa guardar;
Que de vosso bom cuidado
Tudo se póde fiar.
Ide-vos a fazer prestes,
Mandae cavallos sellar;
Pois achá-lo não pudestes,
Ir-m'heis buscar o lugar
Onde da vista o perdestes.