Isso he de quem quer bem;
Mas não sei se o vio alguem,
Porque quem espera teme.
Agora me quizera eu
Daqui cem mil leguas ver.

FILODEMO.

Folgára eu assi de ser,
Porqu'este cuidado meu
Fôra mais de agradecer.
Que quando por accidente
A Fortuna desastrada
Vos apartasse da gente
N'hum deserto, onde somente
Das feras fosseis guardada;
Lá por ferro, fogo e ágoa
Buscar minha morte iria;
A voz ronca, a lingua fria,
Tamanho mal, tanta mágoa
Ás montanhas contaria.
Lá, mui contente e ufano
De mostrar amor tão puro, [{468}]
Poderia ser que o dano,
Que não move hum peito humano,
Que movesse hum monte duro.

DIONYSA.

Nesse deserto apartado
De toda a conversação
Merecieis degradado
Por justiça, com pregão
Que dissesse: Por ousado.
E eu tambem merecia
Metida a grave tormento,
Pois que, como não devia,
Vim a dar consentimento
A tão sobeja ousadia.

FILODEMO.

Senhora, se me atrevi,
Fiz tudo o que Amor ordena;
E se pouco mereci,
Tudo o que perco por mi,
Mereço por minha pena.
E se Amor pôde vencer,
Levando de mi a palma,
Eu não lho pude tolher;
Que os homens não tẽe poder
Sôbre os affectos da alma.
E ainda que pudera
Resistir contra o mal meu.
Saiba que o não fizera;
Que pouco valêra eu,
Se contra vós me valêra.
Não deve logo ter culpa [{469}]
Quem se venceo d'armas tais:
Assi que nisto, e no mais,
Tomo por minha desculpa
Vós mesma que me culpais.
E se este atrevimento
Com tudo for de culpar,
Acabae de me matar;
Que aqui tenho hum soffrimento
Que tudo póde passar.
E se esta penitencia,
Que faço em me perder,
Algum bem vos merecer,
Fique em vossa consciencia
O que me podeis dever.
Que dizeis a isto, Senhora?

DIONYSA.

Eu que vos posso dizer?
Ja não tenho em mi poder,
Segundo me sinto agora,
Para poder responder.
Respondei-lhe, vós Solina,
Pois que a vós me entreguei.

SOLINA.