CARTAS.
CARTAS.
CARTA I.
Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a não vi; porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me não fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos não lembro, determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante mão vos pago com novas desta, que não serão más no fundo de huma arca para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que todo o mato he ouregãos, e não sabem que cá e lá más fadas ha.
Despois que dessa terra parti, como quem o fazia para o outro mundo, mandei enforcar a quantas esperanças dera de comer até então, com pregão público: Por falsificadoras de moeda. E desenganei esses pensamentos, que por casa trazia, porque em mim não ficasse pedra sobre pedra. E assi posto em estado, que me não via senão por entre lusco e fusco, as derradeiras [{482}] palavras que na nao disse, forão as de Scipião Africano: Ingrata patria, non possidebis ossa mea. Porque quando cuido, que sem peccado que me obrigasse a tres dias de Purgatorio, passei tres mil de más linguas, peores tenções, damnadas vontades, nascidas de pura inveja, de verem su amada yedra de sí arrancada, y en otro muro asida.... Da qual tambem amizades mais brandas que cera, se accendião em odios que disparavão lume que me deitava mais pingos na fama, que nos couros de hum leitão. Então ajuntou-se a isto acharem-me sempre na pelle a virtude de Achilles, que não podia ser cortado senão pelas solas dos pés; as quaes de mas não verem nunca, me fez ver as de muitos, e não engeitar conversações da mesma impressão, a quem fracos punhão mao nome, vingando com a lingua o que não podião com o braço. Emfim, Senhor, eu não sei com que me pague saber tão bem fugir a quantos laços nessa terra me armavão os acontecimentos, como com me vir para esta, onde vivo mais venerado que os touros de Merceana, e mais quieto que a cella de hum Frade Prégador. Da terra vos sei dizer que he mãe de villões ruins, e madrasta de homens honrados. Porque os que se cá lanção a buscar dinheiro, sempre se sustentão sobre ágoa como bexigas; mas os que sua opinião deita á las armas Mouriscote, como maré corpos mortos á praia, sabei que antes que amadureção, se seccão. Ja estes que tomavão esta opinião de valentes ás costas, crede que nunca riberas de Duero arriba cavalgaron Zamoranos, que roncas de tal soberbia entre si fuesen hablando; e quando vem [{483}] ao effeito da obra, salvão-se com dizer que se não podem fazer tamanhas duas cousas, como he, prometter e dar. Informado disto veio a esta terra João Toscano, que, como se achava em algum magusto de rufiões, verdadeiramente que alli era su comer las carnes crudas, su beber la viva sangre. Callisto de Siqueira se veio cá mais humanamente, porque assi o prometteo em huma tormenta grande em que se vio. Mas hum Manoel Serrão, que, sicut et nos, manqueja de hum olho, se tẽe cá provado arrezoadamente, porque fui tomado por juiz de certas palavras, de que elle fez desdizer a hum Soldado, o qual pela postura de sua pessoa era cá tido em boa conta. Se das damas da terra quereis novas, as quaes são obrigatorias a huma carta, como marinheiros á festa de S. Frei Pero Gonçalves, sabei que as Portuguezas todas cahem de maduras, que não ha cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quizerem lançar pedaço. Pois as que a terra dá? além de serem de rala, fazei-me mercê que lhe falleis alguns amores de Petrarca, ou de Boscão; respondem-vos huma linguagem meada de hervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança ágoa na fervura da mor quentura do mundo. Ora julgae, Senhor, o que sentirá hum estomago costumado a resistir ás falsidades de hum rostinho de tauxia de huma Dama Lisbonense, que chia como pucarinho novo com ágoa, vendo-se agora entre esta carne de salé, que nenhum amor dá de si. Como não chorará las memorias de in illo tempore! Por amor de mi, que ás mulheres dessa terra digais de minha parte que se querem absolutamente ter alçada com baraço [{484}] e pregão, que não receiem seis mezes de má vida por esse mar, que eu as espero com procissão e palio, revestido em pontifical, aonde est'outras Senhoras lhe irão entregar as chaves da cidade, e reconhecerão toda a obediencia, a que por sua muita idade são ja obrigadas. Por agora não mais, senão que este Soneto[3] que aqui vai, que fiz á morte de Dom Antonio de Noronha, vos mando em sinal de quanto della me pezou. Huma Ecloga fiz sobre a mesma materia, a qual tambem trata alguma cousa da morte do Principe, que me parece melhor que quantas fiz. Tambem vo-la mandára para a mostrardes lá a Miguel Dias, que pela muita amizade de D. Antonio, folgaria de a ver; mas a occupação de escrever muitas cartas para o Reino, me não deo lugar. Tambem lá escrevo a Luis de Lemos em resposta d'outra que vi sua: se lha não derem, saiba que he a culpa da viagem, na qual tudo se perde.
Vale.
[3] He o Soneto 12.
CARTA II.
Esta vai com a candeia na mão morrer nas de v. m.; e se dahi passar, seja em cinza; porque não quero que do meu pouco comão muitos. E se todavia quizer meter mais mãos na escudella, mande-lhe lavar o nome, e valha sem cunhos. [{485}]
La mar en medio y tierras, he dejado
Á cuanto bien cuitado yo tenia:
Cuan vano imaginar, cuan claro engaño
Es darme yo á entender que con partirme
De mí se ha de partir un mal tamaño!