Quão mal está no caso quem cuida que a mudança do lugar muda a dor do sentimento! E senão, diga-o quien dijo que la ausencia causa olvido. Porque emfim la tierra queda, e o mais a alma acompanha. Ao alvo destes cuidados jogão meus pensamentos á barreira, tendo-me ja, pelo costume, tão contente de triste, que triste me faria ser contente; porque o longo uso dos annos se converte em natureza. Pois o que he para mor mal, tenho eu para mor bem. Aindaque, para viver no mundo, me debruo d'outro panno, por não parecer coruja entre pardaes, fazendo-me hum para ser outro, sendo outro para ser hum; mas a dor dissimulada dara seu fruito; que a tristeza no coração, he como a traça no panno.

E por tão triste me tenho,
Que se sentisse alegria,
De triste não viviria.
Porque a tal sorte vim,
Que não vejo bem algum
Em quanto vejo,
Que não nasceo para mim;
E por não sentir nenhum,
Nenhum desejo.

Porque cousas impossiveis, he melhor esquecê-las que deseja-las. E por isso

Só, tristeza, vos queria,
Pois minha ventura quer [{486}]
Que só ella
Conheça por alegria;
E que se outra quizer,
Morra por ella.

Pouco sabe da tristeza quem (sem remedio para ella) diz ao triste que se alegre. Pois não vê que alheios contentamentos a hum coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dóbrão o que padece. Vós, se vem á mão, esperais de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de bons propositos. Pois desenganae-vos, que desque professei tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E porque não digais, que não sou gente fóra do meu bairro, vêdes, vai huma volta feita a este mote, que escolhi na manada dos engeitados; e cuido que não he tão dedo queimado, que não seja dos que ElRei mandou chamar; o qual falla assi:

Não quero, não quero
Jubão amarello.
Se de negro for,
Tão bem me parece,
Quanto me aborrece
Toda alegre côr:
Côr que mostra dor,
Quero, e não quero
Jubão amarello.

Parece-vos que se póde dizer mais? Não me respondais: Quem gabará a noiva? porque assentae, que fui comendo e fazendo, ou assoprando, que não he tão pequena habilidade. E porque vos não pareça, que foi mais acertar, que querê-lo fazer; vêdes, vai outra do mesmo jaez, com tanto que se não vá a pasmar. [{487}]

Perdigão perdeo a penna,
Não ha mal, que lhe não venha.
Em hum mal outro começa,
Que nunca vem só nenhum;
E o triste que tẽe hum,
A soffrer outro se offreça;
E só pelo ter conheça,
Que basta hum só que tenha,
Para que outro lhe venha.

Que graça será esperardes de mim propositos em cousa que os não tẽe para comigo? Pois ainda que queira, não posso o que quero; que hum sentido remontado, de não pôr pé em ramo verde, tudo lhe succede assi; e cada hum acode ao que lhe mais doe; e mais eu, que o que mais me entristece he ter contentamento, pois fujo delle, que minha alma o aborrece, porque lhe lembra que he virtude viver sem elle. Que ja sabeis que mágoa he, vê-lo-has e não o paparás. Por fugir destes inconvenientes,

Toda a cousa descontente
Contentar-me só convinha
De meu gôsto:
Que o mal, de que sou doente,
Sua mais certa mézinha
He desgôsto.