Ja ouvirieis dizer: Mouro, o que não podes haver, dá-o pola tua alma. O mal sem remedio, o mais certo que tẽe, he fazer da necessidade virtude: quanto mais, se tudo tão pouco dura, como o passado prazer. Porque, emfim, allegados son iguales los que viven por sus manos etc. A este proposito, pouco mais ou [{488}] menos, se fizerão humas voltas a hum mote d'enchemão, que diz por sua arte zombando, mais que não de siso (que toda a galantaria he tirá-la donde se não espera), o qual crede que tẽe mais que roer do que hum praguento. Por tanto recuerde el alma adormida, e mande escumar o entendimento, que d'outra maneira, de fuera dormiredes, pastorcico. E o meu Senhor diz assi:

Dava-lhe o vento no chapeirão,
Quer lhe dê, quer não.
Bem o póde revolver,
Que o vento não traz mais fruito;
E mais vento he sentir muito
O que, emfim, fim ha de ter.
O melhor, he melhor ser,
Que o vento no chapeirão,
Quer lhe dê, quer não.

Huma cousa sabei de mim, que queria antes o bem do mal, que o mal do bem; porque muito mais se sente o por vir, que o passado; e a morte até matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque para tomar a palha a esta materia, são necessarias azas de Nebri. Mas vós sois homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mi vos sei dar he:

Que esperança me despede,
Tristeza não me fallece,
E tudo o mais me aborrece.
Ja que mais não mereceo
Minha estrella,
Só a tristeza conheço, [{489}]
Pois que para mi nasceo,
E eu para ella.

No mundo não tẽe boa sorte, senão quem tẽe por boa a que tẽe. E daqui me vem contentar-me de triste. Mas olhae de que maneira:

Vivo assi ao revés,
Tomando por certa vida
Certa morte,
Com que fólgo em que me pês;
Pois minha sorte he servida
De tal sorte.

Huma cousa sabei, que o mal, inda que ás vezes o vejais louvar, não ha quem o louve com a boca, que o não tache com o coração.

Ajuda-me a soffrer
Vida tão sem soffrimento,
E tão sem vida,
Ver que, emfim, fim hão de ter
Desgôsto e contentamento
Sem medida.

Attentae que não são maos confeitos de enforcado, para os que estão com o baraço na garganta, cuidar que o bem e o mal, aindaque sejão differentes na vida, são conformes na morte; porque vemos

Que não ha tão alta sorte,
Nem ventura tão subida,
Ou desastrada,
A quem o assópro da morte
Não sopre o fogo da vida.
A seu fim todas cousas vão correndo;
Nem ha cousa, que o tempo não consuma, [{490}]
Nem vida, que de si tanto presuma,
Que se não veja nada, em se vendo.
Que o mais certo que temos,
He não termos nada certo
Cá na terra.
Pois para seus não nascemos;
Se o seu nos dá incerto,
Nada erra.