Quero-vos dar conta de hum Soneto sem pernas, que se fez a hum certo recontro que se teve com este destruidor de bons propositos, e não se acabou, porque se teve por mal empregada a obra; cujo teor he o seguinte:

Forçou-me amor hum dia, que jogasse;
Deo as cartas, e az de ouros levantou;
E sem respeitar mão, logo triumphou,
Cuidando que o metal, que me enganasse.
Dizendo, pois triumphou, que triumphasse
A huma sota de ouros, que jogou,
Eu então por burlar quem me burlou,
Tres paos joguei, e disse que ganhasse.

Principes de condição, ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza: fazem com sua fidalguia, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós, onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma hervilhaca. Ja sabeis que basta hum Frade ruim, para dar que fallar a hum convento. Duas cousas não se soffrem sem discordia; companhia no amar, mandar villão ruim sôbre cousa de seu interesse. Não se póde ter paciencia com quem quer que lhe fação o que não faz. Desagradecimentos de boas obras destruem a vontade para não fazê-las a amigo, [{491}] que tẽe mais conta com o interesse, que com a amizade: rezae delle, que he dos cá nomeados.

Grande trabalho he querer fazer alegre rosto, quando o coração está triste: panno he, que não toma nunca bem esta tinta; que a lua recebe a claridade do sol, e o rosto do coração. Nada dá quem não dá honra no que dá: não tẽe que agradecer, quem, no que recebe, a não recebe; porque bem comprado vai o que com ella se compra. Não se dá de graça o que se pede muito. Estai certo, que quem não tẽe huma vida, tẽe muitas. Onde a razão se governa pela vontade, ha muito que praguejar, e pouco que louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto comsigo, como males de que se não guardárão, podendo. Não ha alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este purgatorio, a que chamais honra: onde muitas vezes os homens cuidão que a ganhão, ahi a perdem. Onde ha inveja, não ha amizade; nem a póde haver em desigual conversação. Bem mereceo o engano, quem creo mais o que lhe dizem, que o que vio. Agora ou se ha de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, perguntae-lhe donde vem: vereis que algo tiene en el cuerpo, que le duele. Ora temperae-me lá esta gaita, que nem assi, nem assi achareis meio real de descanso nesta vida; ella nos trata somente como alheios de si, e com razão;

Pois somente nos he dada
Para que ganhemos nella
O que sabemos.
Se se gasta mal gastada, [{492}]
Juntamente com perdella
Nos perdemos.

Enfim, esta minha senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, he a mais fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve he,

Ponderemos e vejamos
Que ganhamos em viver
Os que nascemos:
Veremos, que não ganhamos,
Senão algum bem fazer,
Se o fazemos.

E por isso respeitando,

Que o por vir tal será,
Enthesouremos;
Porque ao certo não sabemos
Quando a morte pedirá
Que lhe paguemos.

Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo mais aborrecida que a verdade, tẽe-se em menos conta que a virtude. Mas com tudo, com seu pensamento, quando lhe vem á vontade, acarreta mil pensamentos vãos; que tudo para com ella he hum lume de palhas. Nenhuma cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na mor bonança, como ella; porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os corpos á costa; e, se vem á mão, com as almas no inferno, que he bem ruim gasalhado.