E pois todos isto temos,
Não nos engane a riqueza,
Por que tanto esmorecemos, [{493}]
Traz que vamos;
Ja que temos por certeza
Que quando mais a queremos,
A deixamos.
Gastâmos em alcançá-la
A vida; e quando queremos
Usar della,
Nos tira a morte lográ-la:
Assi que a Deos perdemos,
E a ella.

Porque ja ouvirieis dizer: Ninho feito, pêga morta. Que me dizeis ao contentamento do mundo, que toda a dura delle está emquanto se alcança? Porque acabado de passar, acabado de esquecer. E com razão, porque acabado de alcançar, he passado; e maior saudade deixa, do que he o contentamento que deo. Esperae, por me fazer mercê, que lhe quero dar humas palavrinhas de proposito.

Mundo, se te conhecemos,
Porque tanto desejamos
Teus enganos?
E se assi te queremos,
Mui sem causa nos queixamos
De teus danos.
Tu não enganas ninguem;
Pois a quem te desejar,
Vemos que danas:
Se te querem qual te vem,
Se se querem enganar,
Ninguem enganas.
Vejão-se os bens que tiverão
Os que mais em alcançar-te
Se esmerárão;
Que huns vivendo, não vivêrão, [{494}]
E outros, só com deixar-te,
Descansárão.
Se esta tão clara fé
Te põe claros teus enganos,
Desengana:
Sobejamente mal vê,
Quem com tantos desenganos
Se engana.
Mas como tu sempre mores
No engano em que andamos,
E que vemos,
Não cremos o que tu podes,
Senão o que desejamos
E queremos.
Nada te póde estimar
Quem bem quizer conhecer-te
E estimar-te;
Qu'em te perder ou ganhar,
O mais seguro ganhar-te
He perder-te.
E quem em ti determina
Descanso poder achar,
Saiba que erra;
Que sendo a alma divina,
Não a póde descansar
Nada da terra.
Nascemos para morrer,
Morremos para ter vida,
Em ti morrendo:
O mais certo he merecer
Nós a vida conhecida,
Ca vivendo.
Emfim, mundo, es estalagem,
Em que pousão nossas vidas
De corrida: [{495}]
De ti levão de passagem
Ser bem ou mal recebidas
Na outra vida.

Á fuera, á fuera Rodrigo, que eu se muito for por este caminho, darei em enfadonho, de que me parece me não livrará, nem ainda privilegio de Cidadão do Porto. E pois me vendo a vós, soffrei-me com meus encargos. E porque não digais que sou herege de amor, e que lhe não sei orações, vêdes, vai huma: Di, Juan, de qué murió Blas? com hum pé á Portugueza, e outro á Castelhana: e não vos espanteis da libré, que eu em qualquer palmo desta materia perco o norte. E os supplicantes dizem assi:

Di, Juan, de que murió Blas,
Tan niño y tan mal logrado?
Gil, murió de desamado.
Dime, Juan, quien se engañó,
Que con amor se engañase,
Pensando que el bien hallase,
Adonde el mal cierto halló?
Despues que el engaño vió,
Que hizo desenganado?
Gil, murió de desamado.
Travou com elle pendença,
Em ter razão confiado;
Mas Amor, como he letrado,
Houve contr'elle a sentença:
E co'aquella differença,
Disse entre si o coitado:
Gil, morreo de desamado.
Quem tẽe razão tão cerrada,
Que não saiba, sendo rudo
E sem respeito, [{496}]
Que sem Deos he tudo nada,
E nada com elle tudo
Sem defeito?
E sendo isto assi tão certo,
Como todos confessamos
E sabemos;
Não troquemos pelo incerto
O em que tão certo estamos,
Pois o vemos.

A tudo isto podeis responder, que todos morremos do mal de Phaeton, porque del dicho al hecho, vá gran trecho. E de saber as cousas a passar por ellas, ha mais differença, que de consolar a ser consolado. Mas assi entrou o mundo, e assi ha de sahir: muitos a reprehendê-lo, e poucos a emendá-lo. E com isto amaino, beijando essas poderosas mãos huma quatrinqua de vezes, cuja vida e reverendissima pessoa nosso Senhor etc.

——

O seguinte fragmento de uma composição satyrica em prosa e verso, em que Luis de Camões descreve uns jogos de canas, com que na cidade de Goa se festejou a successão de Francisco Barreto no governo daquelle Estado, appareceo na 3.ª edição das suas Rimas, com as duas antecedentes cartas, e em seguimento da ultima. O intento do poeta he mostrar por meio das divisas que tirárão os Justadores, que todos elles erão ou sacerdotes de Baccho, ou parvos, ou homens perdidos.

.....e hum que bebia excessivamente, tirou por divisa hum morcego; ave em que foi convertida Alcithoe com as irmãas, por desprezarem os sacrificios de Baccho. E como aquelle, que se em tal êrro cahisse, não [{497}] queria ser convertido em tão baixo animal e tão nojoso, dizia a sua letra assi em Castelhano:

Si yo desobedeciere
Á tu deidad santa y pura,
En al mudes mi figura.