MOTE.

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai formosa, e não segura.

Voltas.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamalote:
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura;
Vai formosa, e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabellos de ouro entrançado,
Fita de côr d'encarnado,
Tão linda que o mundo espanta:
Chove nella graça tanta, [{103}]
Que dá graça á formosura;
Vai formosa, e não segura.

—oOo—

MOTE.

Quem disser que a barca pende,
Dir-lhe-hei, mana, que mente.

Voltas.

Se vos quereis embarcar,
E para isso estais no caes,
Entrae logo: que tardaes?
Olhae qu'está preamar:
E se outrem, por vos fretar,
Vos disser qu'esta que pende,
Dir-lhe-hei, mana, que mente.
Esta barca he de carreira;
Tẽe seus apparelhos novos:
Não ha como ella outra em Povos
Boa de leme, e veleira:
Mas, se por ser a primeira,
Vos disser alguem que pende,
Dir-lhe-hei, mana, que mente.

—oOo—