MOTE.
Com razão queixar-me posso
De vós, que mal vos queixais;
Pois, Senhora, vos sangrais,
Que seja n'hum corpo vosso. [{104}]
Voltas.
Eu para levar a palma,
Com que ser vosso mereça,
Quero que o corpo padeça
Por vós, que delle sois alma.
Vós do corpo vos queixais,
Eu queixar-me de vós posso,
Porque, tendo hum corpo vosso,
Na minha alma vos sangrais.
E sem fazer differença
No que de mi possuis,
Pelo pouco que sentis,
Dais á minh'alma doença.
Porque dous aventurais?
Oh não seja o damno nosso!
Sangre-se este corpo vosso,
Porque, minha alma, vivais.
E inda, se attentardes bem,
Seguis medicina errada,
Porque para ser sangrada
Hum'alma sangue não tem.
E pois em mi sarar posso
Males, que á minha alma dais,
Se inda outra vez vos sangrais,
Seja neste corpo vosso.
—oOo—
MOTE.
Ojos, herido me habeis,
Acabad ya de matarme; [{105}]
Mas muerto volved á mirarme,
Porque me resusciteis.
Voltas.
Pues me distes tal herida,
Con gana de darme muerte,
El morir me es dulce suerte,
Pues con morir me dais vida.
Ojos, qué os deteneis?
Acabad ya de matarme;
Mas muerto volved á mirarme,
Porque me resusciteis.
La llaga cierto ya es mia,
Aunque, ojos, vós no querrais;
Mas si la muerte me dais,
El morir me es alegría.
Y así digo que acabeis,
O ojos, ya de matarme;
Mas muerto volved á mirarme,
Porque me resusciteis.
—oOo—