PAGEM.

E porque razão, Senhor?

PRINCIPE.

Para que seja a tristeza
Castigo do meu temor.
Porque ordena
O Amor, que me condena,
Que se haja de sentir,
E sem dizer nem ouvir.
Bem-aventurada a pena
Que se póde descobrir!
Oh caso grande e medonho!
Oh duro tormento fero!
Verdade he isto, qu'eu quero?
Não he verdade, mas sonho
De que acordar não espero.
Quero-me chegar a ElRei [{269}]
Meu pae, que ja m'está vendo.
Mas onde vou? Não m'entendo.
Com que olhos eu olharei
Hum pae, a quem tanto offendo?
Que novo modo de antolhos!
Porque neste atrevimento
Devêra meu sentimento
Para elle não ter olhos,
Nem para ella pensamento.

Chega aonde está ElRei, e diz:

REI.

Filho, como andais assi?
Que tanto desgôsto tomo
De vos ver como vos vi!

PRINCIPE.

Não sei eu tanto de mi,
Que possa saber o como.
Dias ha ja, Senhor, que ando
Mal disposto, sem saber
Este mal que possa ser;
Que se nelle estou cuidando,
Quasi me vejo morrer.

REI.