E buſca mais pera o cuydado engano,
Mouro que por Piloto aa nao lhe mande,
Sagaz, aſtuto, & ſabio em todo o dano
De quem fiar ſe poſſa hum feito grande,
Dizlhe que acompanhando o Luſitano,
Por tais coſtas, & mares co elle ande:
Que ſe daqui eſcapar, que la diante
Va cair onde nunca ſe aleuante.
Ia o rayo Apolina viſitaua,
Os Montes Nabatheos acendido,
Quando Gama cos ſeus determinaua,
De vir por agoa a terra apercebido:
A gente nos bateis ſe concertaua,
Como ſe foſſe o engano ja ſabido:
Mas pode ſoſpeitarſe facilmente,
Que o coração preſago nunca mente.
E mais tambem mandado tinha a terra,
De antes pelo Piloto neceſſario:
E foilhe reſpondido em ſom de guerra,
Caſo do que cuydaua muy contrario:
Por iſto, & porque ſabe quanto erra,
Quem ſe cre de ſeu perfido aduerſario,
Apercebido vay como podia,
Em tres bateis ſomente que trazia:
Mas os Mouros que andauão pela praya,
Por lhe defender a agoa deſejada,
Hum de eſcudo embarcado, & de azagaya,
Outro de arco encuruado, & ſeta eruada:
Eſperão que a guerreira gente ſaya,
Outros muytos ja poſtos em cillada.
E porque o caſo leue ſe lhe faça,
Poem hũs poucos diante por negaça.
Andão pela ribeira alua arenoſa,
Os belicoſos Mouros acenando,
Com a adarga, & co a aſtea perigoſa,
Os fortes Portugueſes incitando:
Nam ſoſfre muito a gente generoſa,
Andarlhe os cães os dentes amoſtrando.
Qualquer em terra ſalta, tam ligeiro,
Que nenhum dizer pode que he primeiro.
Qual no corro ſanguino, o ledo amante,
Vendo a fermoſa dama deſejada,
O Touro buſca, & pondo ſe diante,
Salta, corre, ſibila, acena, & brada:
Mas o animal atroçe neſſe instante,
Com a fronte cornigera inclinada,
Bramando duro corre, & os olhos cerra,
Derriba, fere, & mata & poem por terra.
Eis nos bateis o fogo ſe leuanta,
Na furioſa & dura artilheria,
A plumbea pela mata, o brado eſpanta:
Ferido o ar retumba, & aſſouia:
O coraçam dos Mouros ſe quebranta,
O temor grande o ſangue lhe resfria.
Ia foge o eſcondido de medroſo,
E morre o deſcuberto auenturoſo.
Não ſe contenta a gente Portugueſa:
Mas ſeguindo a victoria eſtrue, & mata
A pouoação ſem muro, & ſem defeſa,
Esbombardea, acende, & desbarata.
Da caualgada ao Mouro ja lhe peſa,
Que bem cuidou comprala mais barata:
Ia blasfema da guerra, & maldizia,
O velho inerte, & a mãy que o filho cria.
Fugindo, a ſeta o Mouro vay tirando,
Sem força, de couarde, & de apreſſado,
A pedra, o pao, & o canto arremeſſando,
Dalhe armas o furor deſatinado:
Ia a Ilha, & todo o mais, deſemparando,
Aa terra firme foge amedrontado.
Paſſa, & corta do mar o eſtreito braço,
Que a Ilha em torno cerca, em pouco eſpaço.
Hũs vão nas almádías carregadas,
Hum corta o mar a nado diligente,
Quem ſe affoga nas ondas encuruadas,
Quem bebe o mar, & o deita juntamente:
Arrombão as meudas bombardadas
Os Pangaios ſotis da bruta gente.
Desta arte o Portugues em fim caſtiga,
A vil malicia, perfida, inimiga.