Tornão victorioſos pera a armada,
Co deſpojo da guerra, & rica preſa,
E vão a ſeu prazer fazer agoada,
Sem achar reſiſtencia, nem defeſa
Ficaua a Maura gente magoada,
No odio antigo, mais que nunca aceſa.
E vendo ſem vingança tanto dano,
Somente estriba no ſegundo engano.

Pazes cometer manda arrependido,
O Regedor daquella inica terra,
Sem ſer dos Luſitanos entendido,
Que em figura de paz lhe manda guerra:
Porque o Piloto falſo prometido,
Que toda a mà tenção no peito encerra.
Pera os guiar aa morte lhe mandaua,
Como em ſinal das pazes que trataua.

O Capitão, que ja lhe entam conuinha,
Tornar a ſeu caminho acoſtumado,
Que tempo concertado, & ventos tinha,
Pera yr buſcar o Indo deſejado.
Recebendo o Piloto que lhe vinha,
Foy delle alegremente agaſalhado:
E reſpondendo ao menſageiro, a tento
Aas vellas manda dar ao largo vento.

Desta arte deſpedida a forte armada,
As ondas de Anfitrite diuidia,
Das filhas de Nerêo acompanhada,
Fiel, alegre, & doçe companhia.
O Capitão, que não cahia em nada,
Do enganoſo ardil que o Mouro vrdia:
Delle muy largamente ſe informaua,
Da India toda, & coſtas que paſſaua:

Mas o Mouro inſtruido nos enganos,
Que o maléuolo Baco lhe enſinára
De morte, ou captiueiro nouos danos,
Antes que aa India chegue lhe prepara,
Dando razão dos portos Indianos,
Tambem tudo o que pede lhe declara.
Que auendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente ſe temia.

E diz lhe mais co falſo penſamento,
Com que Synon os Phrigios enganou,
Que perto eſtà hũa Ilha, cujo aſſento,
Pouo antigo Chriſtão ſempre abitou:
O Capitão que a tudo eſtaua a tento,
Tanto co estas nouas ſe alegrou,
Que com dadiuas grandes lhe rogaua,
Que o leue aa terra onde eſta gente eſtaua.

Ho mesmo o falſo Mouro determina,
Que o ſeguro Chriſtão lhe manda & pede,
Que a Ilha he poſſuida da malina
Gente, que ſegue o torpe Mahamede:
Aqui o engano & morte lhe imagina,
Porque em poder & forças muito excede
Aa Moçambique, eſta Ilha que ſe chama
Quîloa, muy conhecida pola fama.

Pera là ſe inclinaua a leda frota:
Mas a Deoſa em Cythere celebrada,
Vendo como deixaua a certa rota,
Por yr buſcar a morte não cuidada,
Não conſente que em terra tão remota
Se perca a gente della tanto amada.
E com ventos contrairos a deſuia,
Donde o Piloto falſo a leua, & guia.

Mas o maluado Mouro nam podendo,
Tal determinação leuar auante,
Outra maldade inica cometendo,
Ainda em ſeu propoſito constante,
Lhe diz, que pois as agoas diſcorrendo,
Os leuàrão por força por diante,
Que outra Ilha tem perto, cuja gente,
Erão Chriſtãos com Mouros juntamente.

Tambem nestas palauras lhe mentia,
Como por regimento em fim leuaua,
Que aqui gente de Chriſto não auia:
Mas a que a Mahamede celeebraua.
O Capitão que em tudo o mouro cria,
Virando as vellas, a Ilha demandaua:
Mas nam querendo a Deoſa guardadora,
Nam entra pela barra, & ſurge fora.