Aqui tens companheiro aſsi nos feitos
Como no galardão injusto & duro,
Em ti & nelle veremos altos peitos,
A baxo eſtado vir humilde, & eſcuro:
Morrer nos hoſpitais em pobres leitos,
Os que ao Rey, & aa ley ſeruem de muro,
Iſto fazem os Reys, cuja vontade
Manda mais que a juſtiça & que a verdade.

Iſto fazem os Reis, quando embebidos
Nũa aparencia branda que os contenta,
Dão os premios de Aiace merecidos,
Aa lingoa vaã de Vliſſes fraudulenta:
Mas vingome que os bens mal repartidos
Por quem ſo doces ſombras apreſenta,
Se não os dão a ſabios caualeiros,
Dãos os logo a auarentos liſongeiros.

Mas tu de quem ficou tão mal pagado
Hum tal vaſſalo, o Rey ſo nisto inico,
Se não es para darlhe honroſo eſtado,
He elle pera darte hum reino rico:
Em quanto for o mundo rodeado
Dos Apolineos rayos, eu te fico
Que elle ſeja entre a gente illuſtre & claro
E tu niſto culpado por auaro.

Mas eis outro, cantaua, intitulado
Vem com nome real, & traz conſigo
O filho, que no mar ſerâ illustrado
Tanto como qualquer Romano antigo:
Ambos darão com braço forte, armado,
A Quiloa fertil aſpero caſtigo,
Fazendo nella Rey leal, & humano,
Deitado fora o perfido Tirano.

Tambem farão Mombaça, que ſe arrea
De caſas ſumptuoſas, & edificios,
Co ferro, & fogo ſeu, queimada, & fea,
Em pago dos paſſados maleficios:
Deſpois na coſta da India, andando chea
De lenhos inimigos, & arteficios,
Contra os Luſos: com vellas, & com remos
O mancebo Lourenço farà eſtremos.

Das grandes naos, do Samorim potente,
Que encherão todo o mar, coa ferrea pela,
Que ſae com trouão do cobre ardente,
Farà pedaços leme, masto, vela,
Deſpois lançando arpeos ouſadamente
Na capitania inimiga: dentro nela
Saltando, a farâ ſo com lança & eſpada
De quatrocentos Mouros deſpejada.

Mas de Deos a eſcondida prouidencia,
Que ella ſo ſabe o bem de que ſe ſerue,
O porâ onde esforço, nem prudencia
Poderâ auer, que a vida lhe reſerue:
Em Chaul, onde em ſangue & reſistencia
O mar todo com fogo & ferro ferue,
Lhe farão, que com vida ſe não ſaya
As armadas de Egipto & de Cambaya.

Ali o poder de muitos inimigos
Que o grande esforço, ſo com força rende,
Os ventos que faltârão, & os perigos
Domar, que ſobejârão, tudo o ofende:
Aqui reſurjão todos os antigos,
A ver o nobre ardor, que aqui ſe aprende,
Outro Sceua verão, que eſpedaçado
Não ſabe ſer rendido, nem domado.

Com toda hũa coxa fora, que em pedaços
Lhe leua hum cego tiro, que paſſara,
Se ſerue inda dos animoſos braços,
E do grão coração, que lhe ficâra:
Ate que outro pilouro quebra os laços,
Com que co alma o corpo ſe liâra,
Ella ſolta voou da priſam fora,
Onde ſubito ſe acha vencedora.

Vâyte alma em paz da guerra turbulenta,
Na qual tu mereceſte paz ſerena,
Que o corpo que em pedaços ſe apreſenta,
Quem o gerou vingança ja lhe ordena:
Que eu ouço retumbar a grão tormenta,
Que vem ja dar a dura, & eterna pena,
De Eſperas, Baſiliſcos, & Trabucos,
A Cambalcos crueis, & Mamelucos.