Eis vem o pay com animo eſtupendo,
Trazendo furia & magoa por antolhos,
Com que o paterno amor lhe estâ mouendo
Fogo no coração, agoa nos olhos:
A nobre yra lhe vinha prometendo,
Que o ſangue farâ dar pellos giolhos
Nas inimigas naos ſentilo ha o Nilo,
Podelo ha o Indo ver, & o Gange ouiulo.

Qual o Touro cioſo, que ſe enſaya
Pera a crua pelleja, os cornos tenta
No tronco dhum Carualho, ou alta Faya
E o âr ferindo, as forças eſprimenta:
Tal, antes que no ſeyo de Cambaya
Entre Franciſco irado na opulenta
Cidade de Dabul, a eſpada afia,
Abaxandolhe a tumida ouſadia.

E logo entrando fero na enſeada
De Dio, illuſtre em cercos & batalhas,
Farâ eſpalhar a fraca & grande armada,
De Calecu, que remos tem por malhas:
A de Melique Yaz acautelada,
Cos pelouros que tu Vulcano eſpalhas,
Farâ yr ver o frio & fundo aſſento,
Secreto leito do humido elemento.

Mas a de Mir Hocem, que abalroando
A furia eſpararà dos vingadores,
Verâ braços & pernas yr nadando,
Sem corpos, pello mar, de ſeus ſenhores,
Rayos de fogo yrão repreſentando,
No cego ardor, os brauos domadores,
Quanto ali ſentirão olhos, & ouuidos,
E fumo, ferro, flamas & alaridos.

Mas ah, que desta proſpera vitoria,
Com que deſpois virâ ao patrio Tejo,
Quaſi lhe roubarâ a famoſa gloria
Hum ſucceſſo que triste & negro vejo,
O Cabo Tormentorio, que a memoria
Cos oſſos guardarâ: não terâ pejo
De tirar deſte mundo aquelle eſprito,
Que não tirarão toda a India, & Egito.

Ali Cafres ſeluagens poderão,
O que destros immigos não podêrão,
E rudos paos tostados ſos farão,
O que arcos & pelouros não fizerão,
Occultos os juizos de Deos ſam,
As gentes vaãs que não nos entenderão,
Chamãolhe fado mao, fortuna eſcura,
Sendo ſo prouidencia de Deos pura.

Mas ô que luz tamanha, que abrir ſinto,
Dizia a Ninfa, & a voz aleuantaua,
La no mar de Molinde em ſangue tinto
Das cidades de Lamo, de Oja, & Braua:
Pello Cunha tambem, que nunca extinto
Serâ ſeu nome, em todo o mar que laua
As ilhas do Auſtro, & praias, que ſe chamão
De ſam Lourẽço, & em todo o Sul ſe afamão.

Eſta luz he do fogo, & das luzentes
Armas, com que Albuquerque yra amãſand
De Ormuz os Parſeos, por ſeu mal valentes,
Que refuſam o jugo honroſo & brando:
Ali verão as ſetas estridentes
Reciprocarſe, a ponta no ar virando,
Contra quem as tirou, que Deos paleja
Por quem eſtende a fe da madre Igreja.

Ali do ſal os montes não defendem
De corrupção os corpos no combate,
Que mortos pella praya, & mar ſe eſtendem
De Gerum, de Mozcate, & Calayate:
Ate que a força ſo de braço aprendem
A abaxar a ceruiz, onde ſe lhe ate
Obrigação de dar o reyno inico
Das perlas de Barem tributo rico.

Que glorioſas palmas tecer vejo,
Com que victoria a fronte lhe coroa,
Quando ſem ſombra vaã de medo, ou pejo
Toma a ilha illuſtriſsima de Goa:
Deſpois, obedecendo ao duro enſejo
A deixa, & ocaſião eſpera boa,
Com que a torne a tomar, que esforço & arte
Vencerão a fortuna, & o proprio Marte.