Eis ja ſobrella torna & vây rompendo
Por muros, fogo, lanças, & pilouros,
Abrindo cõ a eſpada o eſpeſſo, & horrendo
Eſquadrão de Gentios, & de Mouros:
Irão ſoldados inclitos fazendo
Mais que Liões famelicos, & Touros,
Na luz que ſempre celebrada & dina
Sera da Egipcia ſancta Caterina.

Nem tu menos fugir poderas deſte,
Poſto que rica, & posto que aſſentada
La no gremio da Aurora, onde naceſte,
Opulenta Malaca nomeada:
As ſetas venenoſas que fizeste,
Os Criſes com que ja te vejo armada,
Malaios namorados, Iaos valentes
Todos faras ao Luſo obedientes.

Mais eſtanças cantâra esta Syrena
Em louuor do illuſtriſsimo Albuquerque,
Mas alembroulhe hũa yra que o condena,
Poſto que a fama ſua o mundo cerque:
O grande capitão, que o fado ordena
Que com trabalhos gloria eterna merque,
Mais ha de ſer hum brando companheiro
Pera os ſeus, que juiz cruel & inteiro.

Mas em tempo que fomes, & aſperezas
Doenças, frechas, & trouoẽs ardentes,
A ſazão, & o lugar fazem cruezas
Nos ſoldados a todo obedientes:
Parece de ſeluaticas brutezas,
De peitos inhumanos & inſolentes,
Dar extremo ſuplicio pella culpa
Que a fraca humanidade & Amor deſculpa.

Não ſerâ a culpa abominoſo inceſto,
Nem violento estupro em virgem pura,
Nem menos adulterio deſoneſto,
Mas cũa eſcraua vil laſciua & eſcura:
Se o peito ou de cioſo, ou de modeſto,
Ou de vſado a crueza fera & dura,
Cos ſeus hũa ira inſana não refrea,
Poẽ na fama alua noda negra & fea.

Vio Alexandre Apeles namorado
Da ſua Campaſpe, & deulha alegremente,
Não ſendo ſeu ſoldado eſprimentado,
Nem vendoſe num cerco duro & vrgente:
Sentia Ciro que andaua ja abraſado
Araſpas, de Pantea em fogo ardente,
Que elle tomara em guarda, & prometia
Que nenhum mao deſejo o venceria.

Mas vendo o Illuſtre Perſa, que vencido
Fora de amor, que em fim não tem defenſa,
Leuemente o perdoa, & foy ſeruido
Delle num caſo grande em recompenſa.
Per força de Iudita foy marido
O ferreo Balduuino, mas diſpenſa
Carlos pay della, poſto em couſas grandes,
Que viua, & pauoador ſeja de Frandes.

Mas proſeguindo a Nimpha o longo canto,
De Soarez cantaua, que as bandeiras
Faria tremolar, & por eſpanto,
Pellas roxas Arabicas ribeiras:
Madina abominabil teme tanto,
Quanto Meca, & Gidâ, coas derradeiras
Prayas de Abaſia: Barborâ ſe teme,
Do mal de que o Emporio Zeila geme.

A nobre ilha tambem de Taprobana,
Ia pello nome antigo tão famoſa,
Quanto agora ſoberba, & ſoberana,
Pella Cortiça calida, cheiroſa,
Della dar â tributo aa Luſitana
Bandeira, quando excelſa, & glorioſa
Vencendo ſe erguerâ na torre erguida,
Em Columbo, dos proprios tam temida.

Tambem Sequeira as ondas Eritreas
Diuidindo, abrirâ nouo caminho,
Pera ti grande Imperio que te arreas
De ſeres de Candace, & Sabâ ninho:
Maçuà com Ciſternas de agoa cheas
Verâ, & o porto Arquico ali vizinho,
E fara deſcobrir remotas ilhas,
Que dão ao mundo nouas marauilhas.