E tambem porque a ſanta prouidencia,
Que em Iupiter aqui ſe repreſenta,
Por eſpiritos mil, que tem prudencia,
Gouerna o mundo todo, que ſuſtenta:
Inſinalo a prephetica ſciencia,
Em muitos das exemplos, que apreſenta,
Os que ſam bõs, guiando fauorecem,
Os maos, em quanto podem, nos ompecem.
Quer logo aqui a pintura que varîa,
Agora deleitando, ora inſinando,
Darlhe nomes, que a antiga Poeſia
A ſeus Deoſes ja dera, fabulando:
Que os Anjos de celeſte companhia
Deoſes o ſacro verſo eſtâ chamando,
Nem nega que eſſe nome preminente,
Tambem aos maos ſe dà, mas falſamente.
Em fim que o ſumo Deos, que por ſegundas
Cauſas obra no mundo, tudo manda:
E tornando a contarte das profundas
Obras da mão diuina veneranda,
Debaxo deſte circulo onde as mundas
Almas diuinas gozão, que não anda,
Outro corre tam leue & tam ligeiro,
Que não ſe enxerga, he o Mobile primeiro.
Com eſte rapto, & grande mouimento,
Vão todos os que dentro tem no ſeyo,
Por obra deſte, o Sol andando atento
O dia & noite faz, com curſo alheyo:
Debaxo deſte leue anda outro lento,
Tam lento, & ſojugado a duro freyo,
Que em quanto Phebo, de luz nunca eſcaſſo,
Dozentos curſos faz, dâ elle hum paſſo.
Olha estoutro debaxo, que eſmaltado
De corpos liſos anda, & radiantes,
Que tambem nelle tem curſo ordenado,
E nos ſeus axes correm ſcintilantes:
Bem ves como ſe veſte, & faz ornado
Co largo cinto douro, que estellantes
Animais doze traz afigurados,
Apoſentos de Phebo limitados.
Olha por outras partes a pintura,
Que as eſtrellas fulgentes vão fazendo.
Olha a carreta, atenta a Cinoſura,
Andromeda, & ſeu pay, & o drago horrẽdo:
Vê de Caſsiopea a fermoſura,
E do Orionte o geſto turbulento,
Olha o Ciſne morrendo que ſoſpira,
A Lebre, & os Cães, a Nao, & a doce Lira.
Debaxo deſte grande firmamento,
Ves o ceo de Saturno Deos antigo,
Iupiter logo faz o mouimento,
E Marte abaxo bellico inimigo,
O claro olho do ceo no quarto aſſento,
E Venus, que os amores traz conſigo,
Mercurio de eloquencia ſoberana,
Com tres roſtos debaxo vay Diana.
Em todos eſtes orbes, differente
Curſo veras, nũs graue, & noutros leue:
Ora fogem do centro longamente,
Ora da terra eſtão caminho breue,
Bem como quis o padre omnipotente
Que o fogo fez, & o ar, o vento, & neue,
Os quaes veras que jazem mais a dentro,
E tem co mar a terra por ſeu centro.
Neſte centro pouſada dos humanos,
Que não ſomente ouſados ſe contentão
De ſoffrerem da terra firme os danos
Mas inda o mar inſtabil eſprimentão,
Virâs as varias partes, que os inſanos
Mares diuidem, onde ſe apouſentão
Varias nações, que mandão varios Reis,
Varios costumes ſeus, & varias leis.
Ves Europa Chriſtaã mais alta & clara
Que as outras em policia, & fortaleza:
Ves Africa dos bens do mundo auara,
Inculta, & toda chea de bruteza,
Co Cabo que ate qui ſe vos negâra,
Que aſſentou para o Auſtro a natureza:
Olha eſſa terra toda, que ſe habita
Deſſa gente ſem ley, quaſi infinita.