Estes & outros Baroẽs por varias partes,
Dinos todos de fama & marauilha,
Fazendoſe na terra brauos Martes,
Virão lograr os gostos deſta Ilha:
Varrendo triumphantes eſtandartes
Pellas ondas, que corta a aguda quilha,
E acharão eſtas Nimphas & eſtas meſas,
Que glorias & hõras ſam de arduas empreſas

Aſsi cantaua a Nimpha & as outras todas
Com ſonoroſo aplauſo vozes dauão,
Com que feſtejão as alegres vodas,
Que com tanto prazer ſe celebrauão:
Por mais que da Fortuna andem as rodas
Nũa conſona voz todas ſoauão,
Não vos hão de faltar gente famoſa,
Honra, valor, & fama glorioſa.

Deſpois que a corporal neceſsidade
Se ſatisfez do mantimento nobre,
E na armonia & doce ſuauidade,
Virão os altos feitos, que deſcobre,
Thetis de graça ornada, & grauidade,
Pera que com mais alta gloria dobre,
As festas deſte alegre & claro dia,
Pera o felice Gama aſsi dizia.

Faz te merce barão a Sapiencia
Suprema, de cos olhos corporais
Veres, o que não pode a vã ciencia
Dos errados & miſeros mortais:
Sigueme firme, & forte, com prudencia
Por este monte eſpeſſo, tu cos mais.
Aſsi lhe diz, & o guia por hum mato
Arduo, difficil, duro a humano trato.

Não andão muito que no erguido cume
Se acharão, onde hum campo ſe eſmaltaua,
De Eſmeraldas, Rubis, tais que preſume
A vista, que diuino chão piſaua:
Aqui hum globo vem no ar, que o lume
Clariſsimo por elle penetraua,
De modo que o ſeu centro eſta euidente,
Como a ſua ſuperficia, claramente.

Qual a materia ſeja não ſe enxerga,
Mas enxergaſſe bem que estâ composto
De varios orbes, que a diuina verga
Compos, & hum centro a todos ſo tem poſto:
Voluendo, ora ſe abaxe, agora ſe erga,
Nũca ſergue, ou ſe abaxa, & hũ meſmo roſto
Por toda a parte tem, & em toda a parte
Começa & acaba, em fim por diuina arte.

Vniforme, perſeito, em ſi ſoſtido,
Qual em fim o Archetipo, que o criou:
Vendo o Gama este globo, comouido
De eſpanto & de deſejo ali ficou,
Dizlhe a Deoſa, O traſunto reduzido
Em pequeno volume aqui te dou,
Do mundo aos olhos teus, pera que vejas
Por onde vas, & yrâs, & o que deſejas.

Ves aqui a grande machina do mundo,
Eterea, & elemental, que fabricada
Aſsi foy do ſaber alto, & profundo,
Que he ſem principio, & meta limitada,
Quem cerca em derredor eſte rotundo
Globo, & ſua ſuperficia tão limada,
He Deos, mas o q̃ he Deos ninguẽ o entende,
Que a tanto o engenho humano não ſe eſtẽde.

Eſte orbe que primeiro vay cercando
Os outros mais pequenos, que em ſi tem,
Que eſtâ com luz tão clara radiando,
Que a vista cega, & a mente vil tambem,
Empireo ſe nomea, onde logrando
Puras ahnas estão de aquelle bem,
Tamanho, que elle ſo ſe entende & alcança,
De quem não ha no mundo ſemelhança.

Aqui ſo verdadeiros glorioſos
Diuos eſtão, porque eu, Saturno & Iano,
Iupiter, Iuno, fomos fabuloſos
Fingidos de mortal & cego engano:
So pera fazer verſos dedeitoſos
Seruimos, & ſe mais o trato humano
Nos pode dar, he ſo que o nome noſſo
Neſtas eſtrellas pos o engenho voſſo.