Das mãos do teu Eſteuão vem tomar
As redeas hum, que ja ſera illuſtrado
No Braſil, com vencer & caſtigar
O Pirata Frances ao mar vſado:
Deſpois Capitão mor do Indico mar,
O muro de Dâmão ſoberbo & armado,
Eſcala, & primeiro entra a porta aberta
Que fogo & frechas mil terão cuberta.
A eſte o Rey Cambaico ſoberbiſsimo
Fortaleza darà na rica Dio,
Porque contra o Mogor poderoſiſsimo
Lhe ajude a defender o ſenhorio:
Deſpois yrà com peito esforçadiſsimo
A tolher que não paſſe o Rey Gentio,
De Calecu, que aſsi com quantos veyo
O farâ retirar de ſangue cheyo
Deſtroirâ a cidade Repelim,
Pondo o ſeu Rey com muitos em fugida:
E deſpois junto ao Cabo Comorim
Hũa façanha faz eſclarecida,
A frota principal da Samorim,
Que destroir o mundo não duuida,
Vencerâ co furor do ferro & fogo,
Em ſi verâ Beadâla o Morcio jogo.
Tendo aſsi limpa a India dos immigos,
Virâ deſpois com cetro a gouernala,
Sem que ache reſiſtencia, nem parigos,
Que todos tremem delle, & nenhum fala:
So quis prouar os aſperos caſtigos
Baticalâ, que virâ ja Beadala,
De ſangue & corpos mortos ficou chea,
E de fogo & trouoẽs desfeita & fea.
Eſte ſera Martinho, que de Marte
O nome tem coas obras diriuado,
Tanto em armas illuſtre em toda parte,
Quanto em conſelho ſabio & bem cuidado:
Socederlhe ha ali Castro, que o estandarte
Portugues terâ ſempre leuantado,
Conforme ſucceſſor ao ſuccedido
Que hum ergue Dio, outro o defende erguido.
Perſas feroces, Abaſsis & Rumes
Que trazido de Roma o nome tem,
Varios de geſtos, varios de custumes
Que mil naçoẽs ao cerco feras vem
Farão dos ceos ao mundo vãos queixumes
Porque hũs poucos a terra lhe detem,
Em ſangue Portugues juram deſcridos
De banhar os bigodes retorcidos.
Baſiliſcos medonhos & Liões,
Trabucos feros, minas encubertas,
Suſtenta Mozcarenhas cos barões,
Que tam ledos as mortes tem por certas:
Ate que nas mayores opreſſoẽs
Caſtro libertador, fazendo offertas
Das vidas de ſeus filhos, quer que fiquem
Com fama eterna, & a Deos ſe ſacrifiquem.
Fernando hum delles, ramo da alta pranta,
Onde o violento fogo com ruido,
Em pedaços os muros no ar leuanta,
Serâ ali arrebatado, & ao ceo ſubido:
Aluaro quando o inuerno o mundo eſpanta,
E tem o caminho humido impedido,
Abrindoo, vence as ondas, & os perigos,
Os ventos, & deſpois os inimigos.
Eis vem deſpois, o pay, que as ondas corta
Co reſtante da gente Luſitana
E com força & ſaber, que mais importa,
Batalha da felice & ſoberana:
Hũs paredes ſubindo eſcuſam porta,
Outros a abrem, na fera eſquadra inſana,
Feitos farão tão dinos de memoria,
Que não caibão em vêrſo, ou larga hiſtoria.
Este deſpois em campo ſe apreſenta
Vencedor forte & intrepido, ao poſſante
Rey de Cambaya, & a viſta lhe amedrenta
Da fera multidão pradrupedante:
Não menos ſuas terras mal ſuſtenta
O Hydalcham do braço triumphante
Que caſtigando vay Dâbul na coſta
Nem lhe eſcapou Pondâ no ſertão posta.