Olha da grande Perſia o imperio nobre
Sempre posto no campo, & nos caualos,
Que ſe injuria de vſar fundido cobre,
E de não ter das armas ſempre os calos:
Mas ve a ilha Gerum, como deſcobre
O que fazem do tempo os interualos,
Que da cidade Armuza, que ali eſteue
Ella o nome deſpois, & a gloria teue.

Aqui de dom Felipe de Meneſes
Se mostrarâ a virtude em armas clara,
Quando com muito poucos Portugueſes
Os muitos Parſeos vencerâ de Lara:
Virão prouar os golpes & reueſes
De dom Pedro de Souſa, que prouâra
Ia ſeu braço em Ampaza, que deixada
Terâ por terra a força ſo de eſpada.

Mas deixemos o eſtreito, & o conhecido
Cabo de Iaſque dito ja Carpella,
Com todo o ſeu terreno mal querido
Da natura, & dos dões vſados della,
Carmania teue ja por apelido:
Mas ves o fermoſo Indo, que daquella
Altura nace junto aa qual tambem
Doutra altura correndo o Gange vem.

Olha a terra de Vlcinde fertiliſsima,
E de Iaquete a intima enſeada,
Do mar a enchente ſubita grandiſsima,
E a vazante que foge apreſſurada:
A terra de cambaya ve ríquiſsima,
Onde do mar o ſeo fazmentrada,
Cidades outras mil, que vou paſſando,
A voſoutros aqui ſe estão guardando.

Ves corre a coſta cèlebre Indiana
Pera o Sul, ate o Cabo Comori
Ia chamado Cori, que Taprobana
(Que ora he Ceilão) de fronte tem de ſi:
Por este mar a gente Luſitana
Qua com armas virâ deſpois de ti,
Terâ vitorias terras, & cidades
Nas quaes ham de viuer muitas ydades,

As prouincias, que entre hum & o outro rio
Ves com varias nações, ſam infinitas:
Hum reyno Mahometa, outro Gentio,
A quem tem o Demonio leis eſcriptas:
Olha que de Narſinga o ſenhorio
Tem as reliquias ſanctas & benditas,
Do corpo de Thome, barão ſagrado,
Qut a Ieſu Chriſto teue a mão no lado.

Aqui a cidade foy, que ſe chamaua
Meliapor, fermoſa, grande, & rica:
Os Idolos antigos adoraua:
Como inda agora faz a gente inica:
Longe do mar naquelle tempo eſtaua:
Quando a fe, que no mundo ſe pubrica,
Thome vinha prègando, & ja paſſàra
Prouincias mil do mundo, que inſinàra.

Chegado aqui prègando, & junto dando
A doentes ſaude, a mortos vida
A caſo traz hum dia o mar vagando,
Hum lenho de grandeza deſmedida:
Deſeja o Rey, que andaua edificando,
Fazer delle madeira, & não duuida
Poder tiralo a terra compoſſantes
Forças dhomẽs, de engenhos de Aliphantes.

Era tão grande o peſo do madeiro
Que ſo pera abalarſe, nada abaſta,
Mas o nuncio de Christo verdadeiro,
Menos trabalho em tal negocio gaſta:
Ata o cordão que traz por derradeiro
No tronco, & facilmente o leua & arraſta
Pera onde faça hum ſumptuoſo templo,
Que ficaſſe aos futuros por exemplo.

Sabia bem que ſe com fe formada
Mandar a hum monte ſurdo, que ſe moua,
Que obedecerà logo aa voz ſagrada,
Que aſsi lho inſinou Chriſto, & elle o proua:
A gente ficon diſto aluoroçada,
Os Bramenes o tem por couſa noua,
Vendo os milagres, vendo a ſantidade,
Hão medo de perder autoridade.