Sam estes ſacerdotes dos Gentios,
Em quem mais penetrado tinha enueja,
Buſcão maneiras mil, buſcão deſuios
Com que Thome não ſe ouça, ou morto ſeja:
O principal, que ao peito traz os fios,
Hum caſo horrendo faz, que o mundo veja
Que inimiga não ha tão dura, & fera,
Como a virtude falſa da ſincera.

Hum filho proprio mata, & logo acuſa
De homecidio Thome, que era innocente
Dâ falſas teſtemunhas, como ſe vſa
Condenarã no a morte breuemente:
O Santo que não vè milhor eſcuſo,
Que apellar pera o Padre omnipotente,
Quer diante do Rey, & dos ſenhores,
Que ſe faça hum milagre dos mayores.

O corpo morto manda ſer trazido
Que reſucite, & ſeja perguntado,
Quem foy ſeu matador, & ſerâ crido
Por teſtemunho o ſeu mais aprouado:
Viram todos o moço viuo erguido
Em nome de Ieſu crucificado,
Dâ graças a Thome, que lhe deu vida
E deſcobre ſeu pay ſer homicida.

Este milagre fez tamanho eſpanto,
Que o Rey ſe banha logo na ago ſanta,
E muitos apos elle, hum beija o manto
Outro lauuor do Deos de Thome canta:
Os Bramenes ſe encherão de odio tanto,
Com ſeu veneno os morde enueja tanta,
Que perſuadindo a iſſo o pouo rudo,
Determinão matalo em fim de tudo.

Hum dia que prègando ao pouo estaua,
Fingirão entre a gente hum arroido,
Ia Christo neſte tempo lhe ordenaua,
Que padecendo foſſe ao Ceo ſubido:
A multidão das pedras, que voaua,
No Santo dâ ja a tudo offerecido,
Hum dos maos por fartarſe mais de preſſa,
Com crua lança o peito lhe atraueſſa.

Chorarão te Thome, o Gange & o Indo,
Choroute toda a terra que piſaſte,
Mais te chorão as almas, que veſtindo
Se yão da ſancta Fe, que lhe inſinaſte:
Mas os Anjos do ceo cantando, & rindo,
Te recebem na gloria que ganhaſte,
Pedimos te, que a Deos ajuda peças,
Com que os teus Luſitanos fauoreças.

E voſoutros que os nomes vſurpais
De mandados de Deos, como Thome,
Dizey ſe ſois mandados, como estais
Sem yrdes a pregar a ſancta fe?
Olhay que ſe ſois Sal, & vos danais
na patria, onde Propheta ninguem he,
Com que ſe ſalgarão em noſſos dias
(Infieis deixo) tantas Hereſias?

Mas paſſo esta materia perigoſa,
E tornemos aa coſta debuxada,
Ia com eſta cidade tão famoſa,
Se faz curua a Gangetica enſeada,
Corre Narſinga rica, & poderoſa,
Corre Orixa de roupas abaſtada,
No fundo da enſeada o illustre rio
Ganges vem ao ſalgado ſenhorio.

Ganges, no qual os ſeus habitadores
Morrem banhados, tendo por certeza,
Que inda que ſejão grandes peccadores,
Eſta agoa ſancta os laua, & da pureza:
Ve Chatigão cidade das milhores
De Bengala prouincia, que ſe preza
De abundante, mas olha que eſtâ poſta
Pera o Auſtro daqui virada a coſta.

Olha o reyno Arracão, olha o aſſento
De Pegu, que ja mõſtros pouoarão,
Mõſtros filhos do feo ajuntamento
Dhũa molher & hum cão, que ſos ſe acharão:
Aqui ſoante Arame no inſtromento
Da geração cuſtumão, o que vſarão
Por manha da Raynha, que inuentando
Tal vſo, deitou fora o error nefando.