Olha de Banda as Ilhas, que ſe eſinaltão
Da varia cor, que pinta o roxo fruto,
As aues variadas, que ali faltão,
Da verde Noz tomando ſeu tributo:
Olha tambem Bornèo, onde não faltão
Lagrimas, no licor qualhado, & enxuto,
Das aruores, que Cânfora he chamado,
Com que da Ilha o nome he celebrado.
Ali tambem Timor, que o lenho manda
Sàndalo ſalutifero, & cheiroſo,
Olha a Sunda tão larga, que hũa banda
Eſconde pera o Sul difficultoſo:
A gente do Sertão, que as terras anda,
Hum rio diz que tem miraculoſo,
Que por onde elle ſo ſem outro vae,
Conuerte em pedra o pao que nelle cae:
Ve naquella que o tempo tornou Ilha,
Que tambem flamas tremulas vapôra,
A fonte que oleo mana, & a marauilha
Do cheiroſo licor, que o tronco chora,
Cheiroſo mais que quanto eſtila a filha
De Cyniras, na Arabia onde ella mora,
E ve que tendo quanto as outras tem,
Branda ſeda & fino ouro dà tambem.
Olha em Ceilão, que o monte ſe aleuanta
Tanto, que as nuuẽs paſſa, ou a viſta engana,
Os naturaes o tem por couſa ſancta,
Polla pedra onde eſtâ a pègada humana:
Nas ilhas de Maldiua nace a prama
No profundo das agoas ſoberana,
Cujo pomo contra o veneno vrgente
He tido por Antidoto excelente.
Verâs de fronte eſtar do roxo eſtreito
Socotorâ co amaro Aloe famoſa,
Outras ilhas no mar tambem ſogeito
A vos, na coſta de Affrica arenoſa,
Onde ſae do cheiro mais perfeito
A maſſa ao mundo occulta, & precioſa,
De ſam Lourenço ve a Ilha afamada,
Que Madagaſcar he dalguũs chamada.
Eis aqui as nouas partes do Oriente,
Que voſoutros agora ao mundo dais,
Abrindo a porta ao vaſto mar patente,
Que com tão forte peito nauegais:
Mas he tambem razão, que no Ponente
Dhum Luſitano hum feito inda vejais,
Que de ſeu Rey moſtrando ſe agrauado
Caminho ha de fazer nunca cuidado.
Vedes a grande terra que contina
Vay de Caliſto ao ſeu contrario polo,
Que ſoberba a farâ a luzente mina
Do metal, que a cor tem do louro Apolo,
Caſtella voſſa amiga ſerà dina
De lançarlhe o colar ao rudo colo,
Varias prouincias tem de varias gentes
Em ritos & cuſtumes differentes.
Mas ca onde mais ſe alarga, ali tereis
Parte tambem co pao vermelho nota,
De Sancta Cruz o nome lhe poreis,
Deſcobrila ha a primeira voſſa frota:
Ao longo deſta coſta que tereis
Yrâ buſcando a parte mais remota
O Magalhães, no feito com verdade
Portugues, porem não na lealdade.
Deſque paſſar a via mais que mea,
Que ao Antartico polo vay da linha,
Dhũa eſtatura quaſi Gigantea
Homẽs verâ, da terra ali vizinha:
E mais auante o eſtreito, que ſe arrea
Co nome delle agora, o qual caminha
Pera outro mar, & terra que fica onde
Com ſuas frias aſas o Auſtro a eſconde.
Ate qui, Portugueſes, concedido
Vos he ſaberdes os futuros feitos,
Que pello mar, que ja deixais ſabido,
Virão fazer barões de fortes peitos:
Agora, pois que tendes aprendido
Trabalhos, que vos fação ſer aceitos
Aas eternas eſpoſas, & fermoſas,
Que coroas vos tecem glorioſas.