Podeis vos embarcar, que tendes vento
E mar tranquilo pera a patria amada:
Aſsi lhe diſſe, & logo mouimento
Fazem da Ilha alegre, & namorada:
Leuão refreſco, & nobre mantimento,
Leuão a companhia deſejada,
Das Nimphas que ham de ter eternamente,
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
Aſsi forão cortando o mar ſereno,
Com vento ſempre manſo, & nunca yrado,
Ate que ouuerão viſta do terreno
Em que nacerão, ſempre deſejado:
Entrarão pella foz do Tejo ameno,
E a ſua patria, & Rey temido & amado,
O premio & gloria dão, porque mandou
E com titolos nouos ſe illuſtrou.
No mais Muſa, no mais, que a Lira tenho
Deſtemparada, & a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente ſurda, & endurecida:
O fauor com que mais ſe acende o engenho,
Não no dâ a patria não, que esta metida,
No goſto da cubiça, & na rudeza
Dhũa auſtera, apagada, & vil triſteza.
E não ſey porque influxo de deſtino
Não tem hum ledo orgulho, & geral gosto,
Que os animos leuanta de contino,
A ter pera trabalhos ledo o roſto:
Por iſſo vos ò Rey, que por diuino
Conſelho eſtais no regio ſolio poſto,
Olhay que ſois (& vede as outras gentes)
Senhor ſo de vaſſallos excellentes.
Olhay que ledos vão, por carias vias,
Quaes rompentes liões, & brauos touros,
Dando os corpos a fomes, & vigias,
A ferro, a fogo, a ſetas, & pilouros:
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes da Idolatras, & de Mouros,
A perigos incognitos domundo,
A naufragios, a pexes, ao profnndo:
Por vos ſeruir a tudo aparelhados,
De vos tam longe ſempre obedientes,
A quaeſquer voſſos aſperos mandados,
Sem dar reposta promptos & contentes,
So com ſaber que ſam de vos olhados,
Demonios infernais, negros & ardentes,
Cometerão conuoſco, & não duuido
Que vencedor vos fação, não vencido.
Fauoreceyos logo, & alegrayos
Com a preſença, & leda humanidade,
De riguroſas leis deſaliuayos,
Que aſsi ſe abre o caminho aa ſanctidade:
Os mais eſprimentados leuantayos,
Se com a eſperiencia tem bondade,
Pera voſſo concelho, pois que ſabem
O como, o quando, & onde as couſas cabem.
Todos fauorecei em ſeus officios,
Segundo tem das vidas o talento,
Tenhão Religioſos exercicios
De rogarem por voſſo regimento,
Com jejuns, deſciplina, pellos vicios
Comuns, toda ambição terão por vento,
Que o bom Religioſo verdadeiro,
Gloria vaã não pretende nem dinheiro.
Os Caualeiros tende em muita eſtima,
Pois com ſeu ſangue intrepido & feruente,
Eſtendem não ſomente a ley de cima,
Mas inda voſſo imperio preeminente:
Pois aquelles que a tão remoto clima
Vos vão ſeruir com paſſo diligente,
Dous inimigos vencem, hũs os viuos,
(E o que he mais) os trabalhos exceſsiuos.
Fazey ſenhor que nunca os admirados
Alemães, Galos, Italos, & lngleſes
Poſſam dizer que ſam pera mandados,
Mais que pera mandar os Portugueſes:
Tomay conſelho ſo deſprimentados,
Que virão largos anos, largos meſes,
Que poſto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto ſabe.