Dizem lhe os que mandou, que em terra vîrão,
Sacras aras, & ſacerdote ſancto,
Que ali ſe agaſalhàrão, & dormirão,
Em quanto a luz cubrio o eſcuro manto:
E que no Rei, & gentes não ſentirão
Senão contentamento, & gosto tanto:
Que não podia certo auer ſoſpeita,
Nũa mostra tão clara, & tão perfeita.
Co iſto o nobre Gama recebia
Alegremente os Mouros que ſubião,
Que leuemente hum animo ſe fia,
De mostras que tão certas parecião:
A nao da gente perfida ſe enchia,
Deixando a bordo os barcos que trazião:
Alegres vinhão todos, porque crem
Que a preſa deſejada certa tem.
Na terra cautamente aparelhauão,
Armas, & monições, que como viſſem
Que no Rio os nauios ancorauão,
Nelles ouſadamente ſe ſubiſſem:
E neſta treição determinauão,
Que os de Luſo de todo deſtruiſſem:
E que incautos pagaſſem deste geito
O mal que em Moçambique tinhão feito.
As ancoras tenaces vão leuando,
Com a nautica grita coſtumada,
Da proa as vellas ſos ao vento dando,
Inclinão pera a barra abaliſada:
Mas a linda Ericina, que guardando
Andaua ſempre a gente aſsinalada:
Vendo a cilada grande, & tam ſecreta,
Voa do Ceo ao Mar como hũa ſeta.
Conuoca as aluas filhas de Nerêo,
Com toda a mais cerulea companhia,
Que porque no ſalgado Mar naſceo,
Das agoas o poder lhe obedecia.
E propondo lhe a cauſa a que deceo,
Com todos juntamente ſe partia:
Pera eſtoruar que a armada não chegaſſe
Aonde pera ſempre ſe acabaſſe.
Ia na agoa erguendo vão com grande preſſa,
Com as argenteas caudas branca eſcuma,
Cloto co peito corta, & atraueſſa
Com mais furor o Mar do que coſtuma.
Salta Niſe, Nerine ſe arremeſſa,
Por cima da agoa creſpa, em força ſuma:
Abrem caminho as ondas encuruadas,
De temor das Nereidas apreſſadas.
Nos hombros de hum Tritão com geſto aceſo,
Vay a linda Dione furioſa,
Não ſente quem a leua o doçe peſo,
De ſoberbo, com carga tam fermoſa:
Ia chegão perto donde o vento teſo,
Enche as vellas da frota belicoſa.
Repartenſe, & rodeão neſſe inſtante
As naos ligeiras que hião por diante.
Poem ſe a Deoſa com outras em dereito
Da proa capitaina, & ali fechando,
O caminho da barra estão de geito,
Que em vão aſſopra o vento, a vella inchãdo:
Poem no madeiro duro o brando peito,
Pera detras a forte nao forçando.
Outras em derredor leuandoa eſtauão,
E da barra inimiga a deſuiauão.
Quaes pera a coua as pròuidas formigas,
Leuando o peſogrande acomodado,
As forças exercitão, de inimigas,
Do inimigo Inuerno congelado:
Ali ſam ſeus trabalhos, & fadigas,
Ali mostrão vigor nunca eſperado.
Tais andauão as Nimphas eſtoruando
Aa gente Portugueſa o fim nefando.
Torna pera detras a Nao forçada,
A peſar dos que leua, que gritando,
Mareão vellas, ferue a gente yrada,
O leme a hum bordo, & a outro atraueſſando
O Meſtre aſtuto em vão da popa brada,
Vendo como diante ameaçando
Os estaua hum maritimo penedo,
Que de quebrarlhe a Nao lhe mete medo: