A celeuma medonha ſe aleuanta,
No rudo Marinheiro que trabalha,
O grande eſtrondo, a Maura gente eſpanta,
Como ſe viſſem horrida batalha:
Nam ſabem a razão de furia tanta,
Nam ſabem neſta preſſa quem lhe valha,
Cuydão que ſeus enganos ſam ſabidos,
E que ande ſer por iſſo aqui punidos.

Eilos ſubitamente ſe lançauão,
A ſeus bateis veloces que trazião,
Outros encima o mar aleuantauão,
Saltando nagoa a nado ſe acolhião:
De hum bordo & doutro ſubito ſaltauão,
Que o medo os compelia do que vião.
Que antes querem ao mar auenturarſe,
Que nas mãos inimigas entregarſe.

Aſsi como em ſeluatica alagoa,
As rãs no tempo antigo Lycia gente,
Se ſentem por ventura vir peſſoa,
Estando fora da agoa incautamente,
Daqui, & dali ſaltando, o charco ſoa,
Por fogir do perigo que ſe ſente,
E acolhendo ſe ao couto que conhecem,
Sos as cabeças na agoa lhe aparecem.

Aſsi fogem os Mouros, & o Piloto,
Que ao perigo grande as naos guiâra,
Crendo que ſeu engano eſtaua noto,
Tambem foge ſaltando na agoa amara:
Mas por nam darem no penedo immoto,
Onde percão a vida doçe, & cara:
A ancora ſolta logo a capitaina,
Qualquer das outras junto della amaina.

Vendo o Gama, atentado a eſtranheza
Dos Mouros não cuidada, & juntamente,
O Piloto fugir lhe com preſteza,
Entende o que ordenaua a bruta gente,
E vendo ſem contraste, & ſem braueza
Dos ventos, ou das, agoas ſem corrente,
Que a Nao paſſar auante não podia,
Auendo o por milagre aſsi dezia.

O caſo grande, eſtranho, & não cuydado,
O milagre clariſsimo, & euidente,
O deſcuberto engano inopinado,
O perfida inimiga, & ſalſa gente,
Quem poderà do mal aparelhado
Liurarſe ſem perigo ſabiamente.
Se la de cima a guarda ſoberana,
Não acudir aa fraca força humana?

Bem nos moſtra a diuina prouidencia,
Destes portos, a pouca ſegurança,
Bem claro temos viſto na aparencia,
Que era enganada a noſſa confiança
Mas pois ſaber humano, nem prudencia
Enganos tam fingidos nam alcança:
O tu guarda diuina, tem cuidado
De quem ſem ti nam pode ſer guardado.

E ſe te moue tanto a piedade,
Deſta miſera gente peregrina,
Que ſo por tua altiſsima bondade,
Da gente a ſaluas, perfida & malina,
Nalgum porto ſeguro de verdade:
Conduzirmos ja agora determina,
Ou nos amostra a terra que buſcamos,
Pois ſo por teu ſeruiço nauegamos.

Ouuiolhe eſtas palauras piadoſas,
A fermoſa Dione, & comouida,
Dantre as Nimphas ſe vay, que ſaudoſas
Ficarão deſta ſubita partida:
Ia penetra as Eſtrellas luminoſas,
Ia na terceyra Eſphera recebida
Auante paſſa, & la no ſexto Ceo
Pera onde eſtaua o Padre ſe moueo.

E como hia afrontada do caminho
Tão fermoſa no geſto ſe moſtraua,
Queas Eſtrellas, & o Ceo, & o Ar vizinho,
E tudo quanto a via namoraua
Dos olhos, onde faz ſeu filho o ninho
Hũs eſpiritos viuos inspiraua,
Com que os Polos gelados acendia,
E tornaua do Fogo a eſphera fria.